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Cultura » ‘A Besta Deve Morrer’

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Luiz Carlos Merten

09 Janeiro 2009 | 23h47

Já estava indo dormir, mas não resisti e voltei para continuar falando de ‘A Besta Deve Morrer’. Já que mencionei o desfecho de ‘A Mulher Infiel’, quero acrescentar mais alguma coisa sobre o início de ‘Que la Bête Meure’, adaptado de ‘The Beast Must Die’, de Nicholas Blake. Chabrol inicia seu filme usando a mudança de foco. Planos meio desfocados de um menino brincando na praia são alternados com outros de um carro preto que avança velozmente por uma estrada junto ao mar. Chabrol insiste nessa montagem paralela, isolando o menino e o carro, numa preparação do choque iminente e inevitável, enquanto na trilha se ouvem os lamentos de Kathleen Ferrier nos ‘Quatro Cantos Sérios’ de Brahms. Voltamos de novo a Lang, ao destino inexorável, ao qual não se pode fugir. A morte do menino gera o desejo de vingança do pai – tema languiano de vários filmes, mas especialmente do western ‘O Diabo Feito Mulher’ (Rancho Notorious), com Marlene Dietrich, que Lang realizou em 1951 e no qual a canção ‘The Legend of Chuck-A-Luck’ oferece uma súmula da obra do autor (e, por extensão, de boa parte dos filmes de Chabrol nos anos 60 e 70). ‘Escutem a lenda de Chuck-A-Luck/Ouçam a roda do destino/Enquanto gira uma e outra vez com som sussurrante/rola a velha, velha história de ódio, vingança e assassinato’. E pensar que, nos anos 50, os críticos não atribuíam muito valor à obra norte-americana de Lang. Só bem depois muitos daqueles grandes filmes foram reconhecidos como as obras-primas que são. Não é para provocar, não, mas imagino que nossos colegas, os criticos daquela época, estivessem mais interessados em louvar os Coens dos anos 50. Quem…?