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Luiz Carlos Merten

29 Abril 2012 | 10h23

RECIFE – Pela minha posição no jornal, pelo espaço de que disponho, sou bajulado por muitos diretores do cinema brasileiro, e por assessores. Mas há os que sinto que gostam de mim. Eu posso passar um tempão sem encontrar Eduardo Coutinho, João Moreira Salles, Laís Bodanzky (e Luiz Bolognesi), Breno Silveira. Há algo diferente nesses (re)encontros. Ouso chamá-los de amigos, sem nunca ter frequentado a casa nem me encontrado para falar de outra coisa que não filmes pontuais. Amigo, naquele sentido da canção do Roberto, ‘amigo de fé, meu irmão camarada/amigo de tantas jornadas’. Quero que este post que vocês vão compartilhar comigo saia bonito. É para Breno Silveira. Fui rever ontem ‘À Beira do Caminho’, tão prejudicado pelos problemas de som na noite de sua primeira exibição. Houve uma falha no sistema de leitura digital da banda sonora, o som empastelou, foi horrível. Rolou um estresse com a organização do festival, mas o som tem estado impecável no CIne-Teatro Guararapes, um ginásio de esportes adaptado para sediar as projeções do Cine PE. O maior cinema do Brasil – 3 mil lugares, por aí. Ontem estava lotado na sessão de ‘À Beira do Caminho’. Podia-se ouvir as falas, mas também o silêncio e quando entrava a trilha com as canções de Roberto Carlos era de lavar a alma. Na sequência, passou o documentário de Pedro Bial (vou dever o nome do co-diretor, pesquiso e acrescento daqui a pouco) sobre Jorge Mautner e a impressão era de que eu estava num show, dentro do show, imerso no som (do violino de Jorge, inclusive), não num cinema. Esqueçam minhas reticências do post anterior sobre ‘À Beira do Caminho’. Mesmo sem ter ouvido, politique des auteurs, eu deveria ter confiado mais  no taco do Breno. “À Beira do Caminho’ é belo. Estava vendo ontem outro filme, mas foi a reação do público que me sinalizou para o que estava (vi)vendo. Há um momento em que o caminhoneiro João Miguel leva a ex, Dira Paes, a um bailão. O garoto a quem ele dá carona vai junto. João está machucado internamente. Dor de amor, pois ele sofreu uma perda, sente-se culpado. Toca Roberto, Dira o chama para dançar, ele diz não. O garoto pergunta – ‘Pode ser eu?’ E dança com ela. A plateia do Recife aplaudiu em cena aberta. O menino também teve uma perda, a da mãe. A vida vem, volta para ele, que se aninha nos braços de Dira e ela desvia para ele o carinho que queria dar a João. Há algo de erótico na intensidade da cena, que poderia até levar a outra coisa, mas Breno corta. O que lhe interessa é a emoção. ‘À Beira do Caminho’ é filho de ‘Dois Filhos de Francisco’. Relações familiares, perda e reconstrução, as canções. Mesmo me arriscando a ser injusto, e fui, havia falado que, a despeito dos problemas de som, toda a aproximação de João Miguel do garoto me parecera banal, mas iso foi sem ter oiuvido os diálogos e, mais ainda, os silêncios, que potencializam os olhares irados. Cinema não é só imagem. Gostei bastante de À Beira do Caminho’ e me juntei ao aplauso caloroso do público, no final. Sei que, para Breno, o filme é especial. Ele me falou reservadamente, mas o assunto vazou aqui no Recife, foi tornado público no debate sobre o filme. Breno parou um ano com a produção para tentar salvar a mulher, gravemente enferma. Ela morreu. Quando ele retomou o ‘Caminho’ – um filme sobre a perda -, tudo era tão doloroso que ele fez a montagem à distância. Na quinta, não assistiui à sessão, não conseguiria. Tenho a impressão de que o Brasil inteiro vai chorar por ele, com ele, e fazer a catarse quando o filme estrear em agosto. É belo. João Miguel é gênio. E generoso – só um grande ator, consciente de si, permitiria que o garoto, Vinicius Nascimento, lhe roubasse o filme. Toda a volta do caminhoneiro à vida é vista/comentada pelo olhar do garoto. Suas observações são infantis, levemente maliciosas. Como outro Vinicius, o de Oliveira, em  ‘Central do Brasil’, Nascimento é muito, muito, muito bom. E é curioso. Pai/filho, filha, desencontro/reencontro, perda superação. ‘À Beira do Caminho’ faz com canções de Roberto o que ‘Paraísos Artificiais’ faz com a música eletrônica. Os mesmos temas, as mesmas dores. O inferno da culpa vivido com e sem paraísos artificiais, até as alucinações. Sorry, mas gostei mais do filme do Breno, mas é compreensível. Pelo tom do debate, “Paraísos’ é para jovens, e eu já estou velho. Só não estou ainda à beira do caminho. Acabo de reler o post e vou acrescentar uma coisa. Ontem, as sesões terminaram meia-noite de meia. Estava cansado, mas havia uma festa e eu fui. Alguma coisa me dizia para ir. Vou ser piegas. Havia um clima de forró (eletrônico) e, de repente, quando olhei, Sandra Bertini, mulher do Alfrerdo, o sr. e sra. Cine PE, ela dançava com o filho. Sandra superou há pouco uma grave doença. A alegria daqueles dois me encheu a alma. Completou o sentimento que havia tido vendo o filme do Breno.