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A batalha dos Aflitos

Luiz Carlos Merten

29 Abril 2007 | 13h14

RECIFE – Revi ontem à noite Cão sem Dono e não vou dizer que continuei gostando do filme do Beto Brant porque não é exato. Gostei mais! Aproveito para fazer uma retificação. Tenho me referido aqui, diversas vezes, a Cão sem Dono, como um filme ‘do’ Beto. Acontece que é uma co-direção dele com Remato Ciasca e os dois deixaram muito claro no debate desta manhã que foi, realmente, um processo conjunto. Perguntei sobre o roteiro, porque participei da comissão da Petrobrás que avaliou o roteiro de Cão sem Dono. Aprovamos e eu não me arrependo, mas o roteiro mudou muito. Todo roteiro passa por mudanças na tela (menos os do Hitchcock, que achava que filmar significava passar o roteiro, super-hiper-planejado pela câmera, sem mudar nada). Enfim, Beto diz que o roteiro é um ponto de partida importante, claro, mas que o filme, para ele, desde Os Matadores, se faz no set. O roteiro foi muitas vezes desconstruído e reconstruído com os atores. Ele contou umas coisas interessantes que vocês vão poder constatrar, quando o filme estrear (primeiro em Porto Alegre, no começo de junho; depois, nas demais praças, incluindo São Paulo e Rio). Em alguns momentos decisivos, Beto e Renato Ciasca empregaram o mesmo método de Ken Loach, que fornece informações para um dos atores e deixa o outro cru. A cena, desta maneira, tem de ser improvisada e se constrói diante da câmera. A do confronto das duas irmãs em Pão e Rosas, quando a msis velha confessa que se prostituiu para arranjar dinheiro e trazer a caçula do México para Los Angeles, foi feita assim. Tem duas em Cão sem Dono que acho geniais. Anotem – a do sexo tântrico e a do monólogo do pai, interpretado por Luiz Carlos V. Coelho, ator de teatro e cinema do Rio Grande do Sul (e cada vez mais diretor de teatro, me informam). O cara me arriou. Aquela telona do Cine-Teatro Guararapes, aquele público inquieto, participante, nada disso parece o ideal para um filme pequeno (no bom swentiudo), intimista. Dava para cortar o ar, na cena do pai. Baixou um silêncio mortal. Me digam, na estréia, se estou errado. Estou, agora, mais curioso ainda em relação à premiação desta noite. Acho que o júri vai ter de compor e premiar dois filmes – Cão sem Dono e Não por Acaso, de Philippe Barcinski. Falei agora de manhã com Evaldo Mocarzel, que está no júri, e ele só ria, me ouvindo. Se estivesse no júri, aceitaria compor todo o resto, mas não abriria mão dos prêmios de melhor ator e atriz para Júlio Andrade e Tainá Muller, de Cão sem Dono. Leonardo Medeiros e Rodrigo Santoro me parecem magníficos em Não por Acaso, mas o que essa dupla gaúcha – de atores jovens, ainda pouco conhecidos, mas muito-muito talentosos – faz não está no gibi. Um prêmio para eles seria um estímulo, mas também o reconhecimento de dois trabalhos que me pareceram excepcionais. Júlio e Tainá, meus conterrâneos, torço por vocês!