As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

A batalha do Chile

Luiz Carlos Merten

10 Outubro 2017 | 12h04

RIO – Vi meu primeiro filme de Patricio Guzmán no Chile, em 1973. Já contei como Doris, minha ex, mãe da Lúcia, e eu estávamos em Santiago, um mês antes do golpe. A Unidade Popular estava desmoronando, dava para ver, mas amigos de esquerda acreditavam que o povo pegaria em armas em defesa de Salvador Allende e seu governo constitucional. Veio aquele banho de sangue. Vimos Primer Año, que deve estar na retrospectiva de Guzmán em São Paulo. O primeiro ano do governo de Allende. As nacionalizações do cobre, do aço, dos bancos. O povo nas ruas opinando e a visita de Fidel Castro ao país. O sonho revolucionário de 68 viraria a ressaca dos anos 1970. Desde então, a obra de Patricio Guzmán não faz outra coisa senão refletir sobre o golpe. A Batalha do Chile, com seus três segmentos – A Insurreição da Burguesia, O Golpe de Estado e O Poder Popular. Chile – Memória Obstinada e O Caso Pinochet. E as obras-primas A Nostalgia da Luz e El Botón de Názcar/O Botão de Pérola. No deserto de Atacama, o mais alto do mundo, mulheres escavam a terra árida em busca de seus mortos na ditadura. E o botão de pérola, encontrado no mar, carrega outra enquete sobre as origens aquáticas do Chile e seus habitantes primitivos, culminando no horror – os corpos de presos políticos que a ditadura desovava em alto-mar. Assisti a um debate com Guzmán em Paris, com a participação, na plateia, de muitos exilados chilenos. Havia tensão no ar, acusações de oportunismo, favorecimento. Alguns se deram melhor no exílio que outros, e isso pesa. Cria ressentimentos. Mas a obra é poderosa. Poética. Guzmán não precisa de muito – um botão – para tecer uma história imensa. A de seu país. A batalha do Chile, sempre. Gostaria de ter estado aí, ontem à noite. Face ao perigo da regressão, que vivemos, a reflexão é, mais que nunca, necessária.