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Cultura » A batalha de Nápoles

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Luiz Carlos Merten

21 Março 2008 | 08h48

Quero voltar a um post anterior, àquele em que falei sobre ‘Meus Caros Amigos’ e ‘Quinteto Irreverente’ e vocês me disseram que havia um terceiro ‘Meus Caros Amigos’. Confessei que não sabia da existência deste filme – que não foi realizado por Mario Monicelli -, mas desliguei. Outro dia, passei pelo Centro, a Galeria na altura do nº 105, na 24 de Maio, e vi na vitrine de uma loja que vende DVDs (mas estava fechada) os três filmes da série, lado a lado. Descobri que o terceiro foi dirigido por Nanni Loy e agora quero conferir, não importa que seja ruim, como alguns de vocês me disseram. Nanni Loy, Florestano Vancini. Foram tantos os diretores italianos que não tiveram sorte no cinema e terminaram se refugiando na TV. Às vezes me perguntava – o que terá ocorrido com Nanni Loy? (Mas tinha preguiça de pesquisar.) Meu amor por Nanni Loy vem de um filme que ele realizou em 1962, ‘Le Quatre Giornate di Napoli’, que passou em alguns países como ‘A Batalha de Nápoles’, mas no Brasil foi lançado como ‘Quatro Dias de Rebelião’. Fernando Britto, da Versátil, bem nos poderia recuperar este grande filme esquecido. Não conheço evocação mais bela do que esta, que Nanni Loy fez com roteiro de Vasco Pratolini, de uma revolta espontânea como a dos habitantes de Nápoles, que em setembro de 1943 se insurgiram contra os nazistas que ocupavam a cidade. Os filmes demoravam mais tempo para chegar, naquela época. Devo ter visto ‘Quatro Dias de Rebelião’ em 1964, logo após o golpe militar, quando a gente estava muito sensibilizado por tudo aquilo (e esperava uma reação). Faço a ressalva, mas não porque ache que tenha gostado do filme só por isso. Eisenstein não criava heróis individualizados, fazia do homem-massa o grande personagem de seus épicos revolucionários. Nanni Loy segue esta lição. Seu filme exigiu sei lá quantos anos de preparação, mas foi tudo muito autêntico e detalhado, do roteiro à realização, misturando personagens fictícios a fatos. Isso poderia, quem sabe, ter ‘engessado’ a reconstituição daqueles quatro dias, mas a força dramática é tão grande e o lirismo popular tão ‘espetacular’ que mais de uma vez eu já me surpreendi pensando neste filme que vi muito jovem (e nunca revi). Não sei, mas tenho a impressão de que Maria de Medeiros, na sua reconstituição da revolução dos cravos (‘Capitães de Abril’), deve ter tomado ‘Quatro Dias de Rebelião’ como referência. Comecei a escrever o post e só agora me dou conta da casualidade. Nanni Loy, que fez a terceira parte de uma série que vinha sendo conduzida por Monicelli, estreou – vejam que casualidade – à sombra do grande Mario. Não me lembro mais se foi realmente o primeiro filme dele, mas um dos primeiros foi, com certeza. ‘O Grande Golpe dos Eternos Desconhecidos’ já era uma seqüência de ‘I Soliti Ignoti’ (Os Eternos Desconhecidos), que Monicelli havia feito, em 1958 ou 59, com Totò, Marcello Mastroianni, Vittorio Gassman, Renato Salvatori, Claudia Cardinale e mais a fina-flor da comédia all’italiana. Todos, ou quase todos – menos Mastroianni -, voltaram no filme de Loy. Acho que ele era melhor no drama do que na comédia, mas Nanni Loy também fez ‘Esses Italianos, um filme em esquetes tentando definir o que constrói a identidade de um povo. O filme dividia-se em temas – usos e costumes, trabalho, cidadãos Igreja e Estado, mulheres, família. Anna Magnani tinha uma participação impagável no último e eu tenho certeza de que Sylva Koscina – admirável em ‘O Ferroviário’, do Germi -, Virna Lisi e, quem era mesmo?, Lea Massari?, estavam no elenco.