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Cultura » A barreira da (mesma) língua

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Luiz Carlos Merten

18 Agosto 2008 | 09h09

PORTO ALEGRE – Está hoje um típico dia de inverno gaúcho. Frio, chuva – felizmente não está ventando, porque senão a água ia se infiltrar na roupa até gelar os ossos. Liguei para o jornal e a Leo, minha colega Leonirce Brioto, já me disse que lá está quente, e um dia ensolarado. ‘Volta logo!’, pediu – Leo fica fazendo os filmes na TV, na minha ausência. Envio só o destaque. Amanhã, Leo, amanhã. Hoje vou ter aqui em Porto o Wim Wenders, que deve ter chegado ontem. Â tarde, ele dá uma coletiva e, à noite, uma conferência. Espero participar de ambas. Fui ver ontem o ‘Dot.Com’, que havia perdido aí em São Paulo, e que me pareceu simpático, mas tenho de admitir que não consegui entender boa parte dos diálogos, dadas as nossas diferenças de idioma com Portugal. A língua, na verdade, é a mesma, embora existam diferenças pontuais, de palavras e expressões, mas o problema maior é a forma como eles falam, e nós falamos. Existe uma diferença fundamental de ênfase em vogais e consoantes e quando nossos amigos portugueses falam correndo a coisa se complica. Isso não ocorre tanto nos filmes de Manoel de Oliveira, porque ele não trabalha a língua nos registros da naturalidade e do coloquialismo, mas é verdade que Leon Cakoff, na Mostra, já percebeu que é melhor apresentar os filmes do grande Manoel com legendas. Na competição latina de Gramado, havia um filme pórtuguês, ‘O Mistério da Estrada de Sintra’, um folhetim envolvendo os escritores Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão. Achei bem legal, apesar do formato ‘antigão’, porque a história me atraiu muito, mas no debate, que achei um dos melhores, o próprio diretor Jorge Paixão da Costa confessou que se desesperou com a apatia da platéia gramadense. Ele já exibiu o filme em outros festivais e disse que, até nos EUA, o público sempre riu muito das piadas, das ‘farpas’ dirigidas contra a hipocrisia da sociedade portuguesa do século 19, sendo que Ramalho era um mestre delas (tem um livro com este título). Paixão já está acertando com a distribuidora Downtown para que o ‘Mistério’ seja lançado – acho que em outubro – com legendas. Faz muito bem, porque pelo menos aumenta as chances de seu filme, uma investigação policial à Sherlock Holmes, ser compreendido.