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Luiz Carlos Merten

12 Novembro 2011 | 15h11

Desde que voltei ao Brasil, na quarta-feira, o que menos tenho conseguido é tempo para postar. Ontem, pedi a meu amigo João Luiz Sampaio que abrisse o blog para mim e ele caiu duro. Tenho mais de 3500 comentários pendentes, à espera de aprovação. Não seui como eles foram se avolumando, mas aconteceu. Comentei hoje com minha filha no almoço e a Lúcia, muito sensata, ponderou que vou terminar falando sozinho no blog, porque quem comenta espera um retorno. Ok, amigos, vou ter de dar um jeito de validar esses milhares de comentários. Antes disso, uma geral. Na quarta, cheguei esbodegado. Em geral, durmo no avião e chego, tomo banho e vou para o jornal. Cheguei, tomei banho e fui para o jornasl, mas não havia dormido no voo de Dallas para São Paulo. Havia um menininho a bordo, de uns dois anos. Deve ter dado dor de ouvido no moleque porque ele chorou, de berrar, o voo inteiro. Quando o avião aterrissou em Guarulhos, a dor deve ter passado, porque as lágrimas secaram na hora e o moleque queria brincar. Ave Maria! a doce inconsequência da infância. Na quinta, tinha um monte de matérias e ainda corri feito louco para ir entrevistar a viúva de Nicholas Ray, Susan. Na quarta, começa aqui uma retrospectiva do autor. Depois das retrospectivas de Vincente Minnelli e Elia Kazan, a de Ray. Havia gosta de Frances Kazan, adorei Susan Ray. A entrevista dela está no ‘Caderno 2’ de amanhã. Vou voltar à retrospectiva, prometo. Ontgedm à noite, nosso ‘coletivo’ se reuniu para celebrar o retorno de Francesca della Monica. Ela voltou feliz da Itália, comemorando porque, à 0 h de hoje, terminou a era Berlusconi. Terminou mesmo? Mas, enfim, Francesca é especialkista em voz. Sua especialidade ultrapassa a fonoaudiologia. Ela preparou o elenco para cantar na ‘Hécuba’ de Gabriel Villela (e Eurípides), que estreia na quinta que vem. Preparem as sensibilidades e os ouvidos. Gabriel absorveu algumas lições de Michael Cacoyannis, que fez aquela série de adaptações de tragédias – ‘Electra, a Vingadora’, ‘As Troianas’ e ”Ifigênia’. O espetáculo est´sa maravilhoso, aslém de ser outyro prodígio de síntese. Nãoi mais que 1h10, 70 min., como ‘Crônica da Casa Assassinada’. Francesca, queríssima, me terouxe um livro. ‘L’Immagine Cinema’, de Angelo Novi, com as mais berlas fotos (em preto e branco) de clássicos italianos que tive o privilégio de ver na vida. Abri agora ao azar, nasa poásginas 58 e 59. Duas fotos deslumbrantes de ‘O Conformista’, de Bernardo Bertolucci. O primeiro tango em Pàris a gente não esquece. Doninique Sanda ajoelha-se no salão diante de Steffania Sandrelli e, na página seguinte, o salão é visto de fora e o rosto em primeiro plano, lá dentro, é o de Jean-Louis Trintignant. Com a Francesca todo mundo se sente convidado a cantar. Não a trilha de Goran Bregovic, usada por Gabriel, mas clássicos italianos – e boleros. “Dicen que la distancia es el olvido/pero yo no consivo esa razón/Porque yo seguiré siendo el cautivo de los caprichos de su corazón….’ Vinho, muito vinho, intermináveis cantorias, as mais belas fotos do mundo (Silvana Mangano, la donna piú bella, em ‘Teorema’) e, hoje pela manhã, a missa de um mês de Leon Cakoff. Entrei pela primeira vez na igreja da Cruz Torta, em Pinheiros. O padre recitava o cerimonial e eu viajava nas lembranças. De Leon, mas também de outros mortos. E dos filmes. Os versos acima eram de ‘La Barca’. Lembrei-me da barca dos mortos, lembrei-me de muitas travessias de barcas que me marcaram. Em Curaçao, na Suécia (a chegada a Faro). Cá estou voltando ao blog.