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Cultura » A aventura africana de Huston

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Luiz Carlos Merten

24 Abril 2010 | 12h16

Cá estou, no Centro de São Paulo, numa lan house. Demorei quase meia hora para abrir o ‘meu’ blog. vejam o absurdo das tais tecnologias. Mas, enfim, ao chegar ontem em casa me aguardava um pacote com lançamentos em DVD da Paramount, enviados pela simpática assessora da casa, Madalena Martins, ex-PlayArte. ‘Reds’, o cult de Warren Beatty – um dos filmes dissecados no livro da ‘Vanity Fair’ sobre os bastidores famosos de Hollywood -; uma caixa comemorativa dos 75 anos de Elvis Presley, com ‘Balada Sangrenta’ – mas meus favoritos do ‘rei’ são dois filmes de gêneros, o musical ‘Amor a Toda Velocidade’, de George Sidney, com Ann-Margrtet, e o western ‘Estrela de Fogo’, de Don Siegel, que sustentava que Elvis era muito bom ator e o problema é que raramente era solicitado a se mostrar como tal – e, finalmente, ‘Uma Aventura na África’. Não sou o maior fã da aventura africana de John Huston, que valeu o Oscar a Humphrey Bogart, por sua criação como o bêbado Charlie Allnut, mas sempre gopstei muito das histórias de bastidores, que inspiraram um grande Clint Eastwood, ‘Coração de Caçador’. Huston contou certa vez que ia ‘tocando’ ‘African Queen’ sem muito entusiasmo. Alguma coisa não funcionava, até que Katharine Hepburn, a co-estrela, teve o clique. Ela começou a dar a réplica a Bogart usando a entonação da ex-primeira dama Eleanor Roosevelt, ele aceitou o desafio e criou-se o clima de humor ausente no roteiro de James Agee. Sempre achei a história curiosa e elucidativa de como os melhores roteiros, afinal, são ferramentas que os diretores vão usar, e até subverter, que era como faziam os grandes, na era da dominação dos estúdios, em Hollywood. Conto a história pelo seguinte. Ontem à tarde, saí correndo da redação do ‘Estado’ porque queria pegar o ‘Os EUA Contra John Lennon’ (ou é o contrário?), que está numa sessão apenas, à tarde, no Shopping Bourbon. Peguei aquela chuvarada, o motorista não pôde continuar, teve de encostar o carro e quando consegui chegar o filme já havia começado. Desisti. Na pressa para sair, deixei os filmes na TV de segunda inacabados e estava digitando justamente as informações sobre ‘A Lista de Adrian Messenger’, que passa na TV paga. Na série confissões, a que vou fazer agora deve deixar de cabelo em pé Ruy Castro e Sérgio Augusto. Sempre me diverti mais com esse divertissement do velho Huston, um de seus filmes mais abominados pela crítica, porque na verdade se trata de uma brincadeira, um jogo de máscaras, para descobrir quem é o criminoso e um monte de astros aparecem irreconhecíveis. Mas a caça à raposa dentro de ‘Adrian Messenger’ foi ‘plagiada’ por Robert Altman, com certeza, em ‘Gosford Park’ e não me surpreenderia se tivesse sido o modelo também para a de Tony Richardson em ‘As Aventuras de Tom Jones’. E a questão é a seguinte. O roteiro de ‘Adrian Messenger’ é de Anthony Veiller e foi a ele que Huston recorreu quando o script encomendado a Jean Paul Sartre para ‘Freud, Além da Alma’ se revelou infilmável. Dificilmente conseguirei ver o filme de Huston na segunda. Vai ser um dia agitado, em rota para o Recife, onde o Cine PE começa à noite com a homenagem a Guel Arraes e a pre-estreia nacional/internacional de ‘O Bem-Amado’. Gostaria de (re)ver ‘A Lista de Adrian Messenger’. Vou rever ‘Uma Aventura na África’. Não sei se vou gostar mais, quem sabe? O filme foi escolhido pelo American Film Institute como a melhor aventura da história de Hollywood. Acho um tanto exagerado, mas quem sabe um dia eu entro no clima e concordo.