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A arte de amar, de Tom Cruise a Jean Douchet

Luiz Carlos Merten

08 Junho 2017 | 23h46

RIO – Não esquentei muito em São Paulo. Cá estou no Rio, por conta do Festival Varilux. Participei ontem da coletiva em Sampa e vim hoje para fazer as entrevistas individuais. É o Varilux que tem mais gente jovem, nova, ainda desconhecida. Estou adorando. Fui à abertura no Odeon – Tuna Dwek e Christian Boudier, que eu chamei outro dia de François e ele agora retribui me chamando de ‘Marcelo’, fizeram a apresentação. Sorry, Tuna, mas foi algo no estilo de Leon Cakoff e Renata de Almeida na Mostra. Mais amadorismo que informalidade, mas simpático, il faut le dire. E a vantagem de Tuna é que, dominando o francês, ela faz tudo no palco. Apresenta, traduz etc. De tudo o que vi no palco do Odeon, nada me emocionou/interessou mais que as imagens de Duas Garotas Românticas. Les Demoiselles de Rochefort – Catherine Deneuve e Françoise Dorléac. Elles ont dejà 50 anos. 50! Jacques Démy foi a fonte em que bebeu Damien Chazelle para fazer La La Land. Me deu uma vontade brutal de voltar a Paris. Haverá, dia 30 de setembro, uma comemoração no Grand Rex, um dos maiores cinemas de rua da França (e do mundo). Les Demoiselles será exibido em cópia restaurada, seguido de um concerto de Michel Legrand com suas trilhas para o grande Jacques. Se isso não valer uma volta as Paris… Vi ontem, aí em São Paulo, no Imax do Bourbon, A Múmia e antecipo o que será minha matéria de amanhã no Estado. A Missão mais impossível de Tom Cruise. O filme pode muito bem ser o pior de toda a carreira dele. Jesus! Não posso nem dizer que é o samba do crioulo doido porque vão me crucificar – mas é, no conceito de Sérgio Porto, o Stanislau Ponte Preta. Quero ver se, nessa época de correção política, meus queridos Joel Zito Araújo, Lázaro Ramos e Taís Araújo iriam recorrer à Lei Afonso Arinos parta colocar o admirável cronista atrás das grades. Já tergiversei que chegue. De volta à Múmia, nada junta com nada no longa de Alex Kurtzman. O que é, o que é? Um filme de ação, de horror, de efeitos, de amor. Much ado about nothing, como diria William (Shakespeare). Devo viver no mundo da lua. Não fazia a menor ideia de que Russell Crowe, interpretando Marlon Brando, estaria no filme. Tomei um choque. Brando, mesmo gordo feito um porco, entrava para roubar a cena. Não é o caso, hélas, do astro de Gladiador. Quero acrescentar que comprei alguns (muitos?) livros em Paris, entre eles L’Art d’Aimer, uma coletânea dos escritos de Jean Douchet, que saiu pela Petite Bibliothèque des Cahiers du Cinéma. Douchet era o crítico de cabeceira de um de meus mentores, Jefferson Barros. Segue na ativa. É tema de um documentário que passou em Cannes. Li, siderado, textos que ele escreveu, por volta de 1960, sobre Vincente Minnelli (Quatro Cavaleiros do Apocalipse, uma obra-prima), Fritz Lang (O Tigre da Índia), Howard Hawks (Hatari!) e Jean Renoir (Le Caporal Epinglé). Douchet considera Kenji Mizoguchi o maior diretor do mundo – quasse lhe dou razão depois de ter visto O’Haru e Ruas da Vergonha em Lisboa. A idade cai bem nas obras – e críticos – que o tempo respeita. Douchet faz umas sessões comentadas em Paris. Nunca fui a nenhuma. Às vezes penso que é o que o que gostaria de fazer.