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A Annie Girardot, que eu amo tanto, em Rocco

Luiz Carlos Merten

20 Abril 2007 | 13h45

Ia citar o nome de Maria do Rosário Caetano a propósito de outro post, mas terminei me furando para falar dos problemas de grafia que, às vezes, ocorrem no blog. (E não decorrem do fato, como pensa o nosso leitor irritadinho, de que eu seja ignorante no idioma. Posso não ser nenhum Machado de Assis, mas sei acentuar, sim…) Volto à Rosário. Em 2001, ela estava em Montevidéu quando entrevistou a grande Annie Girardot, que participava do Festival Internacional de Teatro da capital uruguaia. Annie estava lá para apresentar sua versão da peça Apareceu a Margarida, do dramaturgo brasileiro Roberto Athayde. Amo Annie Girardot, que, como Nadia em Rocco e Seus Irmãos, faz parte das minhas experiências mais viscerais no cinema. Sempre morri de inveja da Rosário por ter estado lá. Fui pesquisar no arquivo do Estado e a Rosário contou que Annie, esgotada pela viagem, teve lapsos de memória, esqueceu o texto e precisou interromper as apresentações da peça. Isso era o que todos pensavam há seis anos. A verdade é muito mais triste e eu só descobri no vôo de volta de Paris, nesta madrugada. Peguei uma revista Le Point para olhar, sem prestar muita atenção no fato de que Annie Girardot estava na capa. O tema da revista desta semana é a memória e pega carona justamrente no fato de que ocorreu ontem, dia 19, na França, o lançamento do livro La Mémoire de Ma Mère, de Paola Salvatori, filha de Annie com Renato Salvatori, que fazia Simone no clássico de Visconti. Paola desvenda o segredo. Nos últimos anos, lapsos de memória ou o que a imprensa sensacionalista chamava de problemas decorrentes do alcoolismo vinham perseguindo a Girardot. Não é nada disso. Desde 2001, justamente, quando a doença foi diagnosticada, Annie Girardot luta contra o Mal de Alzheimer. Quase morri chorando lendo a matéria. Annie Girardot está perdendo a memória e, se ainda leva a carreira, é um pouco graças ao apoio de diretores como Michael Haneke e à dedicação da filha. Não sou muito fã do cinema do austríaco Haneke e até achei que ele era muito cruel com a Girardot em A Pianista. Ela estava tão devastada! Na verdade, descobri agora que Haneke é um grande cara e teve uma paciência infinita com ela, para que pudesse fazer o filme. Se Annie insiste, ou se a família permite, é porque, como conta Paola, esses raros momentos de interpretação dão uma sobrevida à grande atriz. Seus olhos brilham, o fogo volta quando ela ouve ‘Moteur!’ (o equivalente francês para ‘Rodando!). O texto de Paola é lindo. Ela conta como Annie vive num mundo imaginário no qual Renato Salvatori e a mãe dela, ambos mortos, estão ali, sempre presentes. É duro, Paola vai lembrando todos os problemas destes últimos anos. Mas será duro, principalmente, ela antecipa, quando sua mãe a olhar e não mais a identificar, porque Paola terá morrido em sua memória. Me lembrei de tanta coisa. De Rita Hayworth, que também morreu de Alzheimer e, nos últimos anos, era tema de manchetes sensacionalistas por seu suposto alcoolismo. Me lembrei de meu amigo Tuio Becker, crítico de cinema de Porto Alegre, que parou de escrever e cuja memória também vai se esvaindo. Trabalhei com Tuio no meu primeiro emprego, no Departamento de Audiovisual do Colégio Israelita-Brasileiro, em Porto Alegre (e que apesar do nome pomposo era só uma sala na qual ele e eu produzíamos material de apoio para atividades didáticas, capitaneados pelo José Onofre, que gerenciava o pedaço). Me lembrei da própria Annie Girardot, do encontro dela com Rocco, ele vestido de soldado, ela saída da prisão. Sentam-se para um café e travam um dos grandes diálogos do cinema. Ele fala do paese, evoca a saudade da terra natal, com sua injustiça histórica que expulsou a família Parondi para a cidade grande. Rocco abre, ali, para Nadia, um novo mundo e ela vai tentar se regenerar socialmente, abandonar a prostituição. A violência de Simone, quando Nadia é currada na frente de Rocco, destrói a possibilidade de uma segunda chance. Sempre achei que Annie Girardot, mesmo dublada, em Rocco, apresentava uma das grandes interpretações da história do cinema. Soube só de madrugada do livro de Paola. Poderia ter comprado, já que saiu ontem, A Memória de Minha Mãe. Espero comprá-lo a caminho de Cannes, em maio. Vai ser duro, talvez, de ler, mas é um testemunho que não me pode faltar, sobre uma artista tão imensa.