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Luiz Carlos Merten

08 Setembro 2008 | 12h34

Devo dizer que, se ‘Muriel’ me deixou sem chão, à noite voltei a pisar solo firme no teatro. Havia ligado para meu amigo Dib Carneiro e ele estava indo ao teatro com Ando Camargo, ator de sua peça ‘Salmo 91’, para ver ‘A Alma Imoral’ no teatro da Livraria Cultura, no Conjunto Nacional. Nem sabia que havia teatro lá dentro. Aliás, nunca havia subido a rampa para ver a parte de música clássica da livraria. Ficava ali embaixo, só nos livros. ‘A Alma Imoral’ é um monólogo – a idéia não me entusiasmava muito -, mas bastaram cinco ou dez minutos da Clarice Niskier em cena para eu ficar siderado. Clarice é atriz ligada ao entourage de Domingos Oliveira. Ela começa contando que fazia uma peça chamada ‘Buda’ quando foi chamada a participar de um programa de TV. Ela foi, pensando que ia falar da peça, mas terminou no centro de um debate sobre religiões. Embora judia, Clarice inclinava-se para o budismo. Ela disse que era uma judia budista. Uma telespectadora, dona ‘Léa’, enviou uma mensagem. Disse que era impossível, ou bem a Clarice era judia ou bem budista. Do programa, participava o rabino Nilton Bonder, que tomou o partido de Clarice, não dela, especificamente, mas de uma pessoa capaz de harmonizar o budismo e o judaísmo. Clarice gostou do que ele disse, foi ler ‘A Alma Imoral’ (não imortal) do Bonder e decidiu fazer uma peça, que é sua resposta a todas as donas Léas do mundo. Durante 75 minutos ela fica nua em cena, emitindo conceitos, relatando parábolas e falando de emoções e sentimentos para tratar de temas como certo e errado, tradição e traição, moral e imoral etc. Em princípio, você pode até achar que um espetáculo assim não tem ‘dramaturgia’, mas a tensão entre palavra, movimento e luz me fascinou, da mesma forma que o que diz a Clarice me tocou muito. Tem uma parte em que ela fala em Abraão, que recebeu a ordem divina de matar o filho Isaac e fica dividido entre a obediência e a desobediência… Vocês sabem como sou manteiga derretida. Chorei! ‘A Alma Imoral’ está sendo um grande sucesso de público. Merecido. E eu nunca vi nada parecido. Clarice fica nua, como já disse – uma nudez da alma imoral – , mas contracena o tempo todo com um pano preto. Entre outros prêmios a que ela pode aspirar, na próxima premiação da APCA, a Associação Paulista dos Críticos de Artes, sugiro o de melhor figurino. Aquele simples pano vira uns dez vestidos diferentes, até uma burca. Nem Audrey Hepburn se vestiu tão bem no cinema. Sensacional!