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Cultura » A alma de ‘Lula’

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Luiz Carlos Merten

18 Novembro 2009 | 00h46

BRASÍLIA – Já passa da meia-noite e é pouco provável que algum (alguns) de vocês estejam esperando este post sobre a exibição de ‘Lula, o Filho do Brasil’, na abertura do 42º Festival do Cinema Brasileiro. Poderia deixá-lo, quem sabe, para amanhã de manhã, mas quero postar algo rapidamente, no calor da hora, sem muito tempo para refletir. A sessão do filme foi uma loucura, de desorganização. Havia gente pelo ladrão, autoridades, meio mundo indo beijar a mão de Dona Marisa. A primeira-dama estava presente. Os corredores lotaram, muita gente ficou de pé e outras centenas sentaram-se nas escadas, obstruindo a passagem, o que levou o produtor Luiz Carlos Barreto a fazer uma advertência – se ocorresse alguma coisa, poderia haver uma tragédia. Ele criticou a organização do festival pelo caos. O filho, Fábio Barreto, diretor do filme, foi mais longe. Fábio reclamou que a organização não se preocupara em providenciar poltronas para a equipe e agora seus atores, que não haviam visto ‘Lula’, não tinham onde se sentar. Fábio propôs que o público de uma fileira inteira se levantasse para dar o lugar. Prometeu que haveria outra sessão, a seguir. Recebeu uma vaia monumental. Com tudo isso, a sessão atrasou (enormemente). ‘Lula – Filho do Brasil’ está sendo condenado, a priori, como projeto ‘eleitoreiro’, para plebiscitar o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, elegendo Dilma Roussef como sua sucessora. As críticas vão acompanhar o lançamento, não importa o que diga Luiz Carlos Barreto, o Barretão (que fez o filme para ganhar dinheiro). A questão do patrocínio também já foi levantada e Barretão não é bobo de abrir este flanco, mas convenhamos, a Camargo Correia e a Odebrecht puseram dinheiro. Com tudo o que ganharam de concorrência, estes anos todos, essas empresas podem prescindir das leis de incentivo para botar dinheiro em algum projeto, qualquer projeto. Dito isso, a título de ‘introdução’, a pergunta que não quer calar é – o filme é bom? É chapa branca? Sorry, mas, independentemente de ser correligionário ou não, Lula é um p… personagem, principalmente num filme que o diretor dedica ao povo brasileiro, à capacidade do brasileiro de se reinventar, na dura luta pela sobrevivência. Muita gente tinha me dito, ‘Lula – O Filho do Brasil’ é ‘2 Filhos de Francisco’ sem Brenno Silveira. É o problema. Faz toda a diferença. Como cinema, ‘2 Filhos’ é muito melhor, mas a cinebiografia do filho de dona Lindu se beneficia, e muito, do elenco, ou melhor, de uma interpretação. Glória Pires é ótima, como sempre, mas o problema de Glória é que ela é uma atriz (boa) e a gente só avaliza – ela é boa como dona Lindu, mas é Glória Pires, ‘a’ estrela. O que faz a diferença em ‘Lula – Filho do Brasil’ não é a mãe, que ensina o filho a teimar, e sim, o filho, o que teima. Rui Ricardo Dias veio do teatro. Ele é mais Lula, talvez, do que o próprio. Maravilhoso. E Fábio, dando a volta por cima dos horrorosos ‘Bela Donna’, ‘Jacobina’ e ‘Nossa Senhora do Caravaggio’, pode tropeçar aqui e ali, mas cria a cena mais bonita e emocionante da sua carreira. Lula discursa para a multidão, no estádio. Ele pede que as pessoas vão repetindo suas palavras, para que os que estão longe possam ouví-lo. Suas palavras vão sendo repetidas, como ondas. Numa hora, a onda vem, feito tsunami, quando ele pergunta à multidão o que fazer? Mesmo que aquilo seja real, que tenha ocorrido daquele jeito, a força é tão grande que me arrepiou. E tem o ator. Ele é a alma do filme.