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Cultura » 90 anos!

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Luiz Carlos Merten

14 Julho 2008 | 16h02

Disse que a foto do túmulo do Bergman seria a excceção no meu blog, que é fundamentalmente de texto, para falar de uma arte – o cinema – sempre associada à imagem, embora cinema seja audiovisual. Pois é – Bergman estaria completando hoje 90 anos. Assisti meu primeiro Bergman há quase 40 anos, no começo dos 60. Foi o ‘Morangos Silvestres’, que revi na sexta-feira, no ciclo com que o HSBC Belas Artes está assinalando a data. Que filme! Saí do cinema meio chapado, desnorteado, um pouco porque comecei a viajar nas lembranças de Farö e também porque me lembrei que, ao ver o filme pela primeira vez, não gostei. P.F. Gastal, o Calvero, crítico de cinema da ‘Folha da Tarde’ e do ‘Correio do Povo’, de Porto Alegre, venceu. Ele achava Bergman um gênio, mas naquela época eu era jovem e tolo, não tinha capacidade para entender a indagação existencial e metafísica de Bergman. Aquela foi uma época muito importante de descobertas – estou falando das cinematográficas – para mim. Descobri o neo-realismo, a nouvelle vague, os westerns de John Ford e Anthony Mann, os filmes de sabre (e guerra) japoneses, os dramas poloneses, os clássicos russos, Visconti, Fellini, Godard. Muitos desses autores tiveram um impacto imediato, uma ressonância que bateu na hora. Bergman tomou tempo e acho que, na verdade, só dez anos depois, com ‘Gritos e Sussurros’, que passa amanhã no HSBC Belas Artes, foi que eu me rendi. Amanhã, às 9 da noite, após a exibição justamente de ‘Gritos e Sussurros’, participo de um encontro com o público no HSBC. Vamos falar de Bergman. Adoraria rever hoje ‘O Ovo da Serpente’, um filme que, em 1979, parecia atípico do grande diretor, mas que, agora, existem críticos cada vez mais dispostos a avaliá-lo e avalisá-lo, dizendo que Bergman foi premonitório e a importância atribuída ao dinheiro – e o pouco valor dado à vida -, na verdade não se referiam ao nazismo, mas já eram projeções do que seria – é – o mundo globalizado. Só como curiosidade, essa associação do nazismo com os modernos métodos de RH nas economias neoliberais é o tema do (forte) filme francês em cartaz, ”A Questão Humana’, de Nicolas Klotz. Descansa em paz, era o título do post anterior. Bergman e Ingrid, sua última mulher, aquela com quem ele escolheu compartilhar o túmulo. Hoje seria um lindo dia para estar em Farö, naquela igreja tão tranqüila, naquele canto tão silencioso, porque Bergman escolheu o sítio mais distante da estrada para não ser ‘perturbado’ em seu descanso eterno. Estou emocionado. É melhor parar para não dar vexame, tornando-me piegas demais.