Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » ’55 Dias de Pequim’

Cultura

Luiz Carlos Merten

23 Dezembro 2009 | 00h10

PORTO ALEGRE – Fui hoje à Livraria Cultura, no Shopping Bourbon daqui, e passei pela seção de DVDs, que foi repaginada. Já havia visto aí em Sampa o DVD de ’55 Dias de Pequim’, mas ainda não havia comentado o lançamento do épico de Nicholas Ray, de 1963. Também pela Classicline saíram outros dois épicos produzidos por Samuel Bronston, os dois dirigidos por Anthony Mann, ‘El Cid’ e ‘A Queda do Império Romano’, o primeiro em 1961 e o segundo acho que em 64. Samuel Bronston foi aquilo que se chama de ‘mogul’, o mega-produtor ousado e poderoso que, por volta de 1960, estimulado pelo sucesso de ‘Ben-Hur’, de William Wyler – que, além de arrebentar na bilheteria, ganhou uma enxurrada de Oscars, 11, estabelecendo um recorde que só foi superado quase 30 anos depois por ‘Titanic’ -, lançou-se a uma série de produções gigantescas, sediadas na Espanha, onde ele encontrava facilidades de crédito e custos. A farra não durou muito, mas tenho para mim que a facilidade com que Bronston recriou na Espanha a Judéia de Cristo, a Roma Imperial e a China dos boxers foi decisiva para que, na sequência, o país abrigasse outra florescente indústria, a dos spaghetti westerns, rodados preferencialmente na região de Almeria. Imagino que, no limite, as presenças de todos aqueles artistas e técnicos estrangeiros tenha contribuído para o aprimoramento do próprio cinema espanhol, que só esperava pela morte do general Franco para deslanchar (com Pedro Almodóvar e outros ‘transgressores’). ’55 Dias de Pequim’ foi o segundo superespetáculo de Nick Ray, após ‘O Rei dos Reis’ e a sua história de Cristo sempre me pareceu interesssante pela humanização do personagem e pela contextualização de sua expoeriência, num background histórico bem definido (a resistência aos romanos). Acho lindo o Sermão da Montanha e me toca o desfecho, com a paz que Ray parecia ter encontrado por meio de Jesus, serenando seus demônios internos (que transparecem nas obras-primas). ‘O Rei dos Reis’ teve críticas médias, até boas, mas que eu me lembre ’55 Dias de Pequim’ já foi recebido a pedradas. Sempre gostei do começo, em que o autor redefine sua célebre conceituação do cinema (‘é a melodia do olhar’). Ray queria dizer com isso que os olhos são a janela da alma e revelam a interioridade dos personagens, mas na abertura deslumbrante de ’55 Dias’ ele quer dizer mais – é o próprio fluxo de olhares dos personagens que conduz a montagem, até aquela decapitação, seguida de um corte seco, quando o soldado, Charlton Heston, entra em cena. O filme trata do cerco das embaixadas estrangeiras na China da imperatriz Tsu Hsi, interpretada por Flora Robson. Ela é impulsionada a agir pelo príncipe Tuan, Robert Hellpman, e termina destruindo a dinastia. A cena final é impressionante – durante todo o filme, Ray mostrou o fausto da Cidade Proibida e agora a imperatriz, com roupas de camponesa, repete justamente isso (‘The dinasty is finished! The dinasty is finished’) A narrativa constrói-se em torno do triângulo Heston/David Niven/Ava Gardner. O soldado, homem de ação; o diplomata, negociador; e a condessa russa, agora ‘decaída’. A condessa se sacrifica e Heston se humaniza ao estender a mão para receber a menina, como John Wayne no desfecho de ‘Rastros de Ódio’, o clássico de John Ford. Na época – os revolucionários anos 1960 -, Ray foi criticado porque, em todo o mundo, as cinematografias regionais estavam tentando criar Vietnãs contra o poderio de Hollywood (e da ‘América’). Hoje – ainda não revi o filme -, penso que o que a gente criticava em ’55 Dias’ é o que pode fazer a força do filme. Ray, desiludido, sustentava que, no colonialismo, só existem soluções individuais. Queria acreditar no contrário, toda minha vida quis isso, mas face à realidade do mundo, começo a suspeitar que ele estava sendo visionário e antecipando o que ia ocorrer, na China e no planeta. E a Ava (Gardner) era 10, gente. Ela tem duas ou três falas de que não me esqueço. Numa delas, diz a Heston que continue bebendo, porque o uniforme vai impedir que se desintegre. Do cacete!