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Cultura » 50 anos!

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Luiz Carlos Merten

14 Agosto 2010 | 12h22

GRAMADO – Tive um dia timultuado ontem. O sistema caiu aqui no centro de imprensa do 38° festival e eu consegui enviar minha matéria para a edição de hoje do ‘Caderno 2’ em cima da hora. À tarde, tinha de redigir textos para o ‘Caderno 2’ de domingo, sobre os 50 anos de dois clássicos, ‘Psicose’, de Alfred Hitchcock, e ‘Ben-Hur’, de William Wyler. Redigi os textos numa lan hose do centro da cidade, com direito a queda do sistema (de novo, era perseguição). Não estou me desculpando pelos textos que vocês poderão ler amanhã, mas eles talvez pudessem ter saído melhores. Tenho uma fascinação especial por ‘Psicose’ e até dediquei ao clássico de Hitchcock um dos ensaios da coletânea ‘Cinema – Entre a Realidade e o Artifício’, no qual, não propriamente contesto a tese de que a sequência da escadaria de Odessa de ‘O Encoraçado Potemkin’, de Sergei M. Eisenstein, é a mais influente da história do cinema, mas tento provar que a cena do assassinato da ducha em ‘Psicose’ exerce uma influência muito maior sobre o cinema atual, ou das últimas décadas. Não apenas por essa cena extraordinária – mais que o tour de force técnico, me fascina o significado humano; Marion Crane, naquele banho, quer se purificar para retroceder, voltando para casa para assumir a responsabilidade pelo golpe que deu na firma; a morte brutal interrompe sua segunda chance -, mas pela riqueza que o filme todo tem. Hitchcock realizou-o com equipe reduzida e custo mínimo, utilizando técnicas da TV, que vinha exercitando em seu programa ‘Alfred Hitchcock Presents’, à base de telefilmes de suspense. Encanta-me particularmente a trilha de Bernard Herrmann, que acho que talvez seja a melhor do compositor. Janet Leigh que dirige seu carro sob a chuva, até chegar ao fatídico Bates Motel – aquela partitura é coisa de gênio. ‘Ouço’ a trilha enquanto escrevo o post. Nos anos 1950, Hollywood perdera público para a TV. Hitchcock percebeu isso e fechou um ciclo para abrir outro. de alguma forma a abordagem da violência e a viagem na mente doentia de Norman Bates se inscrevem no movimento das transformações que iriam marcar os anos 1960, a chamada década que mudou tudo. Justamente  no limiar dessas mudanças o cinemão reagiu e a Metro produziu ‘Ben-Hur’, oferecendo ao público dos cinemas a grandiosidade que ele não poderia encontrar na tela reduzida da TV da época. ‘Ben-Hur’ arrebentou na bilheteria, foi um extraordinário sucesso de público e fez história ao ganhar 11 Oscars, um recorde só igualado por ‘Titanic’, outro megassucesso, de James Cameron, nos anos 1990. Wyler era um diretor intimista e se concentrou nos dramas humanos do filme. A oposição entre Judá Ben-Hur e Messala, o mergulho do herói no ódio e a sua remissão através de Cristo, isso era o que lhe interessava. Mas o filme tinha o seu tour de force, a cena da corrida de bigas e ela foi inteiramente realizada pela equipe de segunda unidade, coordenada pelo diretor italiano Mario Soldati. Sempre achei muito interessantes as semelhanças na diversidade de ‘Psicose’ e ‘Ben-Hur’. O filme de TV e o épico contra TV, ambos com suas cenas emblemáticas e cada uma executada de forma bem distinta. ‘Psicose’ gerou inúmeras imitações e virou o filme emblemático da carreira de Brian De Palma. ‘Ben-Hur’ pavimentou a estrada das superproduções, que prosseguiu com todos aqueles épicos feitos por Samuel Bronston na Espanha (por uma questão de custo, Wyler filmara em Roma, onde também se passava ‘A Princesa e o Plebeu’). Confesso que são dois dos filmes que mais vi, na minha vida. Não creio que ‘Ben-Hur’ seja tão bom, mas tem cenas lindas e aquela  em que Cristo dá água ao sedento Judá faz parte do meu imaginário. Já se passaram 50 anos desses dois filmes. 50 anos! E, meninos, eu estava lá. Vi ‘Psicose’ na primeira sessão do cine Vitória, em Porto Alegre, depois do bombardeio de semanas assistindo ao trailer, em que o próprio Hitchcock nos levava, a nós espectadores, numa visita pelo motel de Anthony Perkins. ‘Ben-Hur’, vi e revi acho que no Guarani, embora na época a produção da metro fosse lançada em Porto no Colombo. A maioria de vocês nem era nascida, tenho certeza.

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