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Cultura » ‘Júlio César’, para o Mauro

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Luiz Carlos Merten

19 Outubro 2010 | 15h22

Mauro Brider conta que comprou o DVD de ‘Júlio César’ nas Americanas e pergunta que lembrança tenho do filme de Joseph L. Mankiewicz? É curioso, mas toda minha vida fui um defensor da ‘Cleópatra’ de Mankiewicz. Nunca um defensor solitário, porque Jefferson Barros, que já era um grande nome na crítica gaúcha, me antecedeu no amor ao filme, e isso a despeito do próprio autor, que teve tantos problemas – e pegou tal ódio – que só se referia ‘àquele filme’, sem ousar dizer seu nome. Toda tragédia passa sempre pela palavra no cinema de Mankiewicz, nem sei quem cunhou a expressão, mas foi algum crítico francês, nos ‘Cahiers’. Nenhuma surpresa, portanto, que Joseph Lew se debruçasse sobre o bardo, o próprio Shakespeare. Vi ‘Cleópatra’ antes de ‘Júlio César’, embora exatamente dez anos sepassem os dois, ‘Cleópatra’, de 1963, e ‘Júlio César’, de 1953.  O segundo, vi somente numa reprise do filme, mais para o final dos anos 1960.  Amava o que havia de shakespeariano no filme sobre a Cinderela do Nilo – Richard Burton, na sua cavalgada solitária, no desfecho, clamando por um oponente que lhe permitisse morrer em combate, com honra; aquele plongé de Cleópatra com o cadáver do amado nos braços, dizendo que nunca houve tamanho silêncio, ou então a fala final da aia,  relatando ao general de  Otávio como foi a morte da rainha. ‘And the roman asked – did she died peacifully? And the maid answered – “Like we could expect from the last descendant of a such noble lineage’. E, enquanto o narrador repete, a câmera se afasta até congelar a imagem na reprodução de um afresco. Achava aquilo lindo de morrer, mas só entendi o partido de Mankiewicz em ‘Cleópatra’ depois de assistir a ‘Júlio César’. Toda a arquitetura dramática do filme antigo, como da peça, converge para o discurso de Marco Antônio aos romanos, clamando contra os assassinos de César. É o grande momento de Marlon Brando, e tinha de ser ele, pelo perfil, mas também pela dicção. Em ‘Cleópatra’, é diferente. A rainha do Nilo se eleva ao plano dos deuses com César (a cena em que ele pergunta por que as estátuas não têm olhos é genial – além de remeter ao monumento fúnebre a Maria Vargas em ‘A Condessa Descalça’). Com Marco Antônio, Cleópatra volta ao plano dos mortais. Marco Antônio não está à altura de César, para ocupar seu lugar na História, com maiúscula, e por isso, na versão com Elizabeth Taylor, quando Richard Burton  começa a discursar – e ele era um poderoso ator shakespeariano – a câmera se afasta e o movimento só se encerra com a imagem, em primeiro plano, do fiel camareiro de César, que é mudo, chorando em primeiro plano. César, um homem da palavra, que unia à força, não teráseguidores. Sempre vi os dois filmes como uma espécie de díptico, ‘Júlio César’ e a primeira parte de ‘Cleópatra’. Um em preto e branco, despojado, quase solene; o outro, em cores, grandioso, quase carnavalesco (na cena da entrada em Roma). Sabe o que acho que deverias fazer, Mauro? Assistir aos dois. Poucos autores puderam fazer essa revisão crítica do próprio trabalho no cinema. Mankiewicz era gênio, muito melhor do que seus (pobres e medíocres) críticos.