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Cultura » 30 anos, já!

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Luiz Carlos Merten

17 Junho 2009 | 19h48

Perdi a chance. Só agora, ao checar meus e-mails para validar comentários aos posts – os últimos dias foram muito corridos para mim -, deparei com o do Régis, informando que na terça, dia 16 (ontem!) completaram-se 30 anos da morte de Nicholas Ray. Na semana passada, dia 11 – quinta-feira, no feriadão – havia perdido outra data, a dos 30 de outra morte, a de John Wayne. Quem me conhece e frequenta esse blog, sabe da minha admiração irrestrita por ambos. O curioso é que havia feito um destaque de ‘Bravura Indômita’ quando o filme foi exibido, domingo passado, na TV paga (e o texto foi redigido na quinta, que coisa!). John Wayne foi, e ainda é, uma das figuras emblemáticas do cinema. Nunca me esqueço de um comentário de Godard, que li nos anos 60. Godard se perguntava – como não amar John Wayne quando ele abre os braços para acolher Natalie Wood, a quem procura para matar, no desfecho de ‘Rastros de Ódio’, obra-prima de John Ford? E como não odiá-lo quando ele, republicano de carteirinha, era um dos apoiadores de Barry Goldwater nos anos 60? John Wayne, o Duke, sempre provocou polêmica justamente por essa divisão entre o homem e o artista. O ator virou representação emblemática do homem para grandes diretores como Ford, Howard Hawks, Henry Hathaway, Otto Preminger, Edward Ludwig. John Wayne tinha, como diziam os críticos franceses, o rosto esculpido na pedra. Na fase final de sua carreira, diretores como Mark Rydell e Don Siegel celebraram o mito – o pistoleiro de ‘Os Cowboys’ morre, é enterrado na pradaria e, quando os garotos voltam para procurar seu túmulo, a relva tomou conta de tudo e não é mais possível encontrá-lo; em ‘O Último Pistoleiro’, ele está morrendo de câncer, como o próprio Wayne, na vida, mas isso não o impede de pegar em armas para uma derradeira lição de moral ao jovem Ron Howard, que virou depois diretor. No filme que lhe deu o Oscar, dirigido por um dos grandes que esculpiram seu mito – Hathaway, o filme é ‘Bravura Indômita’ -, o mocinho é gordo, bêbado e mesquinho, mas a despeito de todos esses ‘defeitos’, está condenado ao seu papel de herói e o desempenha, pela última vez, sacrificando-se pela garota. Me emociono, sinceramente, ao escrever sobre John Wayne. Foram tantos filmes marcantes, mas os que carrego comigo são os de Ford – seus papéis em ‘Depois do Vendaval’, ‘Rastros de Ódio’ e ‘O Homem Que Matou o Facínora’ bastam para colocá-lo no meu panteão particular. Sempre me projetei em Andy Devine, chorando pelo seus mortos, no desfecho daquele filme, o adeus de Ford ao western.
Em Cannes, este ano, lembrei-me muito de John Wayne. Foi ao assistir a ‘Inglorious Bastards’, de Tarantino. O filme apropria-se de um original antigo de Enzo G. Castellari e homenageia Sergio Leone, mas a música, na abertura, é ‘The Green Leaves of Summer’, que Wayne utilizou como tema na sua versão do ‘Álamo’, em 1960. Olhava para Tarantino/Leone/Castellari e via John Wayne. Que viagem…
Quanto a Ray, sua agonia atravessa dois filmes de Wim Wenders, ‘O Amigo Americano’ e ‘Nick’s Movie’, cujo tema é a morte do cineasta, vítima de câncer, que Wim transforma em metáfora para discutir o próprio cinema como símbolo de vida e morte. O cinema remete à vida porque permite às pessoas e objetos continuarem existindo como ‘imagem’, mas nessa imagem congelada para sempre está a própria negação da existência concreta e a afirmação da morte. Ray, física e intelectualmente debilitado nos filmes de Wenders, conserva intacta sua dignidade. Jean Tulard diz que ele virou herói de si mesmo. Ray ou o lirismo do homem ferido. Há algo de pungente na sua preferência por personagens frágeis e/ou neuróticos. O herói de Ray é autodestrutivo, está sempre no limite, lutando com os outros e consigo mesmo. James Dean abandona sua família desestruturada e forma a própria família (com Natalie Wood e Sal Mineo) em ‘Juventude Transviada’. Ray feminiza o western e Joan Crawford pega em armas contra o macarthismo em ‘Johnny Guitar’. Se tivesse de escolher um só momento da grande arte de Ray seria Joan Crawford, de branco, dizendo ao pistoleiro Sterling Hayden ‘Vienna’s closed’, Vienna fechou, e ela se refere tanto ao seu saloon quanto ao fato de, ferida em seu amor próprio, ela não querer se dar outra chance. E tudo isso, a composição da imagem, a carnalidade da atriz, a inexpressividade do homem, ainda ganha a dimensão daquela partitura – uma das belas já compostas – de Victor Young. Conta a lenda que o produtor Herbert Yates teria dado carta branca a Ray, pedindo-lhe apenas que fizesse um filme para a felicidade de Joan Crawford. Tantas figuras atormentadas… Em, ‘Cinzas Que Queimam’, ‘Paixão de Bravo’, ‘Delírio de Loucura’, ‘Jornada Tétrica’. Acho que é por isso que gosto de ‘O Rei dos Reis’, porque o Cristo de Ray atinge essa paz que nenhum de seus personagens anteriores logrou. Ray dizia que o cinema é a melodia do olhar. A paz lhe veio nos olhos azuis de Jeffrey Hunter. O último plano do filme é inesquecível. No mar da Galiléia, projeta-se a sombra da rede. Ray consegue ser grande até num de seus filmes considerados menores.