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Luiz Carlos Merten

10 Dezembro 2007 | 10h45

Gostei de ‘3:10 to Yuma’, a nova versão, com Russell Crowe e Christian Bale, mas confesso que prefiro o filme antigo, de Delmer Daves, que foi lançado no Brasil com o título de ‘Galante e Sanguinário’. Na versão anterior, Glenn Ford encarnava as características a que se referia o título – era o pistoleiro charmoso e brutal, capaz de matar a sangue-frio. Na trama de ‘3:10 to Yuma’, rancheiro com problemas de dinheiro aceita caçar bandoleiro para saldar a hipoteca de suas terras. Van Heflin era o intérprete do papel, que agora cabe a Christian Bale. Glenn Ford era o pistoleiro, agora Russell Crowe. O fazendeiro é íntegro e travado, o bandido torna-se sedutor (galante) para sua mulher e, principalmente, para o filho. Acho que é a maior diferença entre as duas versões. Na versão atual, a autoridade paterna é colocada em xeque pelo garoto, que lamenta que o pai não resolva seus problemas na porrada e no tiro, como faz o pistoleiro. Essa contestação da autoridade era muito mais sutil na Hollywood da época, sendo de lembrar que ‘Shane’ (Os Brutos também Amam), de George Stevens, também mostra o garoto (Brandon de Wilde) dividido entre o pai (Van Heflin, por coincidência) e o mítico Shane (Alan Ladd). Há exatamente 50 anos, quando Delmer Daves fez ‘Galante e Sanguinário’, o fenômeno ‘Matar ou Morrer’, de Fred Zinnemann, ainda era suficientemente recente (e forte) para que seu filme provocasse frisson ao retomar o clímax na estação de trens. No filme de Zinnemann, Gary Cooper, como o xerife Will Kane, tentava conseguir ajuda para enfrentar os pistoleiros programados para chegar à sua cidade no trem do meio-dia, para matá-lo. O desafio de Heflin/Bale é colocar Ford/Crowe no trem das 3:10 para Yuma. Dois anos depois, John Sturges faria ‘Duelo de Titãs’ (Last Train from Gun Hill), onde o desafio do xerife Kirk Douglas também era colocar criminoso no último trem, para isso tendo de enfrentar o antigo aliado (Anthony Quinn), agora colocado no campo oposto. É curioso, mas de todos esses filmes, o de que menos gosto é justamente ‘Matar ou Morrer’, mas aí não é só o filme. É o conjunto da obra de Zinnemann, um dos raros cineastas que eram considerados ‘autores’ em Hollywood nos anos 50, mas que eu sempre achei um acadêmico supervalorizado. Entendo que um tema importante – a consciência – percorre o cinema de Zinnemann, mas ele próprio carregava o peso de ser consciente da sua importância. Zinnemann ousava nos temas, mas era convencional na forma. Acho que, quando ‘Cahiers du Cinéma’ desenvolveu sua teoria de autor, foi um pouco para se opor a diretores como Zinnemann, que era considerado ‘o’ artista. Mas eu estou me desviando do meu tema. Já-já, vou voltar a Delmer Daves.