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Luiz Carlos Merten

24 Fevereiro 2007 | 21h19

Lembro-me que antes de viajar para Berlim, postando alguns textos sobre o díptico de Clint Eastwood, provoquei a reação irada de um leitor, que disse que não agüenta mais filmes de 2ª Guerra, que não há mais nada de novo a dizer sobre o assunto etc etc. Não é verdade, o que os dois filmes de Clint, A Conquista da Honra e Cartas de Iwo Jima, ajudam a confirmar, mas poderia citar também o concorrente alemão ao Urso de Ouro, o melhor, o que foi ignorado pelo júri – The Counterfeiters, Os Falsários – e o novo de Paul Verhoeven, The Black Book. O filme alemão fala do plano dos nazistas para solapar as bases econômicas dos aliados, inundando a Europa com dinheiro falso. O ponto do filme é que os prisioneiros que fazem as falsificações recebem tratamento especial nos campos de prisioneiros, e isso termina por provocar uma crise de consciência – é ético beneficiar-se da desgraça dos outros, ajudar a prolongar o sofrimento fortalecendo a economia dos nazstas, em detrimento da dos aliados que lutam a boa guerra, pela libertação da Europa do jugo de Hitler? Onde que alguém já havia visto isso? Eu, nunca e, portanto, acho que os temas ligados à 2ª Guerra não estão esgotados, não senhor(res). Black Book é outro exemplo. A judia que se une à resistência e tem de ir para a cama com o nazista, que termina sendo mais ético que o suposto herói – onde que alguém também já viu isso? Não, senhor(es). Todos os temas já foram tratados, a gente vive dizendo, mas todos os temas também podem ser novos, ou renovados, dependendo do enfoque. Gosto muito de Cartas de Iwo Jima. Acho genial a coragem de Clint de dar uma fase ao inimigo japonês durante a 2ª Guerra, humanizando-o (e não demonizando), como faz até hoje, na Guerra do Iraque, a máquina da propaganda. Mas eu gosto mais de A Conquista da Honra. É gosto pessoal, mesmo. Acho a estrutura do filme mais complexa e audaciosa. Cartas é mais filme de guerra. A Conquista da Honra tem a guerra, mas também tem toda aquela discussão sobre a propaganda, a manipulação da opinião pública (mesmo que por uma causa justa). Tem uma coisa que não gosto em A Conquista da Honra – aqueles planos da praia com a frota americana, aquela quantidade incrível de navios. Me parece fake, tá na cara que é efeito de computador. Mas é um detalhe e eu amo o personagem do índio, naquela estrada, consumido pelos seus demônios. É o personagem mais comovente do filme, quem sabe de toda a obra de Clint como diretor. Dilacerado na sua consciência, ele sabe que não é o herói em que o transformaram. E o pior. Com seus companheiros do Exército, ele ganhou uma identidade, um grupo. Separado deles, perde a referência, vira aquele perdedor. Mas que perdedor! É um personagem de Ford – a grandeza dos derrotados. Chega! Vou parar, senão começo a chorar. Posso até torcer por Cartas no Oscar, mas vou lamentar até o fim que a Conquista não tenha sido indicado. Ele sim, seria meu favorito.