Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » 1958, O Ano em Que o Mundo Descobriu o Brasil (1)

Cultura

Luiz Carlos Merten

16 Junho 2008 | 12h50

Sei que vocês desprezam meus comentários sobre futebol – e teatro, também – e eu nem me aventuro muito pela seara (o foot, principalmente), embora seja um raríssimo exemplo de ‘crítico’ que deu duro durantes anos na editoria de esportes de um jornal. Foi em Porto Alegre, na Zero Hora. Havia saído da Caldas Júnior e, na RBS, só encontrei espaço no Esporte, nos idos de 1970. Foi uma das melhores fases da minha vida profissional, trabalhando com Antônio Oliveira, com o Boró, Roberto D’Azevedo, Emanuel e me desculpem os outros nomes que não estou citando agora. A gente fechava o jornal e caía na noite, mas antes disso, em pleno expediente, havia uma happy hour rápida, quando íamos a um bar próximo ao jornal, o Porta-Larga, para um cervejinha e um tira-gosto rápidos. Foi lá que virei jornalista, e antes de ser crítico é o que sou, o que gosto de ser – jornalista de cinema, jornalista ‘tout court’. Feita a introdução, quero dizer que assisti ontem a ‘1958, o Ano em Que o Mundo Descobriu o Brasil’. Gostei muito do documentário de José Carlos Asberg, mesmo que o começo, a primeira meia-hora, por aí, tenha me parecido melhor como cinema. Mas o resgate – o professor Moreno detesta a palavra; diz que deve ser ‘recuperação’ –; pois vá lá que seja, a recuperação que o Asberg faz da seleção de 58 é muito bacana e eu confesso que o filme dele me deixou com ‘fome’. Haveria muitas outras coisas a destacar e que ele nem comenta, centrado que está no jogo decisivo contra a Suécia e no fantasma de que o Brasil fosse repetir o vexame de 1950, quando o Gighia arremessou aquela bola e o Maracanã calou, vendo o Uruguai sagrar-se campeão do mundo na festa que havia sido armada para a seleção de Barbosa, Jair, Zizinho e Ademir. Aliás, não sei se alguma fez comentei com vocês, mas as imagens daquele gol, quando o Barbosa, apoiado no joelho, vê a bola passar e se levanta, olhando para o alto, preparado para a crucificação – ‘Deus, meu Deus, por que me abandonaste?’ –, é um momento de tragédia que ficou gravado para a posteridade (na minha mente, pelo menos). Asberg lembra que a seleção de 58 partiu daqui sob discrédito e foi eletrizando o País. Áustria, Inglaterra, Rússia, Gales, França. Cada etapa daquela campanha foi épica. E a seleção – Djalma Santos, Vavá, o príncipe Didi, Pelé, Garrincha e o ‘belo’ Bellini, galã daquela seleção. Minhas irmãs, hoje respeitáveis senhoras casadas (e avós) babavam pelo Bellini. E o que é aquele Garrincha endiabrado em campo? Aquele Pelé? Aquele Didi? Sempre que ouço o título ‘A Solidão do Goleiro Diante do Pênalti’, de Wim Wenders, lembro-me de outra coisa, do Vavá, sozinho diante do gol da Rússia, arremessando aquela bola. Posso ser o maior ignorante de futebol do mundo, mas acho aquele gol lindo. Gostei demais do filme, até quando o Asberg omite fatos que me parecem da maior importância. No próximo post continuo.