Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » 1958, O Ano… (2)

Cultura

Luiz Carlos Merten

16 Junho 2008 | 13h12

Nelson Rodrigues falava do nosso complexo de vira-latas e o filme de José Carlos Asberg bate na tecla, relevante, de que após a derrota contra o Uruguai, a baixa auto-estima do brasileiro, que só se acha(va) bom no futebol, só poderia ser elevada com a conquista da Copa do Mundo. Engraçado é que depois de todas as Copas que ganhamos, não adiantam ursos nem leões, nem a Palma de Ouro que já ganhamos – nossa auto-estima cinematográfica é baixa como era a do futebol, na época, e só vai ser exorcizada quando algum filme brasileiro receber o Oscar. A conquista daquela seleção, na Copa de 58, teve todo um significado político, de afirmação da raça, numa época em que Juscelino, o presidente bossa-nova, construía Brasília e a arquitetura de Niemeyer e a bossa nova (a própria) revelavam para o mundo, e para nós mesmos, um Brasil sofisticado como nem sabíamos ser. Havia um mundo em transe, em transformação, aberto ao cosmopolitismo e logo veio o Cinema Novo, que, de certa forma redirecionou o foco para o social, para a (re)descoberta do homem brasileiro, espoliado e marginalizado, na favela e no sertão. Tudo isso de alguma forma está no filme, mas senti falta de outra coisa. Pode ser que me engane – meu ex-colega (e espero que sempre amigo) Eduardo Meditsch, de Porto Alegre, hoje na UFSC, a Universidade Federal de Santa Catarina, virou um especialista da história do rádio no Brasil e bem poderia vir em meu socorro. Em 1958, a TV até já podia existir, mas a gente ‘ouvia’ a Copa nas ondas do rádio. Formaram-se redes de integração nacional, e eu me lembro que, em Porto, a Guaíba, sob o comando de Flávio Alcaraz Gomes, comunicador polêmico do Rio Grande do Sul, transmitia da Suécia e era uma loucura, um pioneirismo. Eu era estudante no Julinho, o Colégio Júlio de Castilhos, que ainda era na Rua Riachuelo, e a gente descia até a Praça da Alfândega, onde a Guaíba havia montado seus alto-falantes, para ouvir os jogos. Nenhuma imagem. A gente tinha de confiar e acreditar na descrição das jogadas e nos comentários que acho que eram do Mendes Ribeiro. Seria outro filme, reconheço, mas como viajei muito nas lembranças, gostaria de ter encontrado em ‘1958’, um pouco dessa ‘descentralização’, que me parece importante. Assim como o mundo descobriu o Brasil, foi ali, naquele momento, que o eixo Rio/São Paulo começou a se fracionar. José Carlos Asberg fez o filme dele colhendo seus depoimentos com jornalistas do centro do País, mas em 58, no Rio Grande, era, comparando-se com hoje, como se não existisse Galvão Bueno – que benção! – e a gente tinha aquela cobertura local. Será que foi só lá? Não tenho muitas informações sobre José Carlos Asberg. Poderia ter procurado na internet, mas fui ver o filme sem saber e preferi redigir sem continuar sabendo. Achei legal, muito legal o filme dele, até porque me despertou lembranças e cobranças que nem imaginei que estaria fazendo hoje. O pior é que não havia quase ninguém na sala 8 do Arteplex. Umas dez pessoas, se tanto, na sessão das 15 horas. Todos esses documentários de futebol a que tenho assistido – o do Inter, muito bom, mas aí sou suspeito, como colorado – têm sempre o mínimo de gente na sala. Que divórcio é esse que faz com que esporte e cinema pareçam incompatíveis no País que se diz do futebol? Cinéfilo pode não ir a jogo, mas nem filme vê? Vocês não sabem o que perdem. O futebol-arte da seleção de 58 é pura festa para os olhos. Não é preciso nem ser torcedor. É só se deixar contagiar pela ginga, pela alegria, pela elegância, pela malícia. Peter Bogdanovich dizia, por volta de 1970, que todos os bons filmes já tinham sido feitos. E a seleção de 58, então? É covardia ficar falando dela, nestes tempos tão medíocres.