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É fundamental (re)ver O Estrangeiro

Luiz Carlos Merten

11 Março 2018 | 07h29

Fui rever ontem O Estrangeiro. Fomos – Dib Carneiro e eu. Encontramos amigos. Não vou conseguir citar todos. Elaine Guerini e Orlando Margarido, Paschoal da Conceição e o filho, que faz a descoberta do grande Visconti – recomendei-lhe que veja, na segunda/amanhã, meu amado Rocco -, Inácio Araújo e Sheila, etc. Foi uma experiência muito rica. As sessões têm estado abarrotadas, muita gente na terceira (nunca a melhor) idade, muitos jovens. Quarenta e tantos (2) anos depois, Luchino, que vivia seu inferno ao morrer – chamado de reacionário, preso à cadeira de rodas e com dificuldade para se expressar, considerando-se traído: seu ator fetiche e, por um tempo, amante, Helmut Berger, aceitara filmar com outro grande, Joseph Losey, que Visconti considerava seu inimigo: ambos se odiavam porque queriam adaptar Em Busca do Tempo Perdido e a obsessão de um e outro terminou por invalidar os projetos de ambos -, prova que sua obra está resistindo ao tempo. Haverá na terça, 13, uma sessão extra de Lo Straniero para atender à demanda, como houve, na sexta, 9, outra sessão suplementar de Morte em Veneza. Revendo Visconti não pude deixar de pensar em James Ivory. Mais velho premiado do Oscar – aos 89 anos, venceu, no fim de semana passado, por Me Chame pelo Seu Nome, a estatueta de roteiro adaptado, fazendo um lindo discurso de agradecimento, talvez, dependendo do gosto, o mais emocionante da noite -, briguei com ele. Foi no Festival de Veneza, quando o entrevistei no Hotel des Bains, cenário de Morte em Veneza. Puxei o assunto porque, para mim, Ivory, mais até que Mauro Bolognini, era o Visconti menor. Talvez fosse uma leitura equivocada (minha) mas Ivory também deve ter-se irritado, percebo hoje, porque na maior calma, demoliu o método viscontiano de escolher atores das mais diferentes nacionalidades e depois dublar todo mundo. O tribunal de O Estrangeiro, o juiz dá sua sentença – “In nomine del popolo francese…”. Somos tão colonizados por Hollywood que não teria estranhado se disse ‘In the name o the french people…’ E a risada excessiva de Maria, a godardiana Anna Karina, puxando todo um elenco de franceses (Bernard Blier, Bruno Cremer, Georges Geret, Georges Wilson, etc). A risada da puta, Nadia/Annie Girardot, no porão de Rocco, provocando a troca de olhares dos irmãos, todos muito jovens e perturbados pela presença daquela mulher. Por que Mersault mata o árabe? Por que dispara os quatro tiros, havia escrito três, que soam como batidas, não na porta da eternidade, mas da sua desgraça. Mersault diz que matou por causa do sol, e Visconti esmera-se para tornar real esse sol abrasador, enganador. No tribunal, o público ri e Mersault será condenado por sua indiferença, por não haver chorado na morte da mãe. É um filme deslumbrante, se a gente consegue entrar nele. Visconti recria em detalhes o mundo, a Argel, de Camus. No tribunal, há um breve plano de um jornalista fazendo anotações – homenagem de Visconti ao escritor, que foi antes repórter? Un clin d’oeil, piscar chistoso de olho, como dizem os franceses? Nunca Visconti foi tão cobrado, em seu tempo. A crítica caiu matando no Festival de Veneza, dois anos depois que, em 1965, ele venceu ali o Leone d’Oro com Vagas Estrelas da Ursa. Visconti traiu Camus, era um grito de guerra. Ele tinha suas desculpas – queria ter atualizado o romance, que se passa em 1938, trazendo-o para a guerra da independência com os franceses, mas necessitava da aprovação da viúva de Camus e ela negou. Queria Alain Delon no papel que Marcello Mastroianni terminou fazendo. Mastroianni foi considerado um equívoco, uma imposição do produtor Dino De Laurentis. Talvez ele represente contra sua persona, mas isso só mostra o grande ator de cinema que era. E o próprio Visconti sabia. Apesar dos problemas, dizia – “Não é um dos meus filmes menores.” Sua mise-en-scène é brilhante. Amplos movimentos de câmera, aos quais acrescenta a zoom, disparada quase como um tiro. Por que zoom, essa é a questão. Está integrada à trilha mais dissonante de Piero Piccioni. (Lembrei-me do experimentalismo de Cláudio Santoro, por Deus.) É um filme sobre o desamor, com um herói cuja indiferença se transforma em ódio. Tudo converge para o encontro com o padre. “Você não é meu pai”, grita Mersault/Mastroianni. E pronto para a execução, como Norma Desmoond para o ‘final shot’ em Sunset Boulevard, olha para a câmera e diz que só deseja que ela (a execução) atraia muita gente e ele seja recebido com gritos de ódio pela multidão. É preciso, absolutamente, urgentemente, (re)ver O Estrangeiro.