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12 Heróis lança outro olhar sobre a história ‘real’

Luiz Carlos Merten

16 Março 2018 | 07h03

Fui ver ontem à noite 12 Heróis. Mariane Morisawa tem um material de entrevista, não sei se com o diretor Nicolai Fuglsig ou com o elenco, à frente Chris Hemsworth. Pode ser que seja com ambos, e para garantir fui ver o filme, para que o material dela seja acompanhado por crítica, ao ser publicado. Sair de casa foi um inferno. Todos os acessos para a Paulista estavam fechados, e fui ao Frei Caneca. Quase me desviei da rota para ir à manifestação clamando por juistiça para Marierlle Franco, mas, de bengala, não dava. Não havia quase ninguém na sala. Quando as luzes se acenderam, no final, só um casal (jovem), além de mim. Não sabia exatamente o que ia ver – não tinha lido nada. A primeira informação que bate na tela é – ‘Baseado numa história real.’ Mais uma. Clint Eastwood conta a dele, em 3h17 – Trem para Paris, fazendo com que os próprios heróis americanos reconstituam sua história diante da câmera. Nicolai Fuglsig, seja lá quem for, recorre a um elenco de astros. Thor em pessoa, mas sem o martelo. Jerry Bruckheimer produz. O filme conta a história da primeira unidade – 12 homens – lançada contra o Talibã, após o11 de Setembro. São jovens, ardentes, indignados e atendem ao chamado da pátria. Às respectivas mulheres, Hemsworth e Michael Peña prometem que vão voltar. A do segundo nega ao marido a f… de despedida. Se quiser – mesmo -, volte rápido. Existem aspectos interessantes. O grupo terá de se aliar a um chefe local. A ele, ou para ele, Hemsworth diz que está oferecendo o equipamento bélico mais avançado do mundo. Só que, nas montanhas do Afeganistão, os conflitos ainda são tribais e a tal Aliança do Norte, contra o inimigo, pode ser destruída pela rivalidade entre chefes. Tanques e jatos, bombardeiros de última geração, contra cavaleiros. O grupo é de ‘mocinhos’, como no western. Ninguém tem dúvida de quem são os good guys dessa história, mas, para reforçar, o roteiro demoniza o dirigente talibã. Para defini-lo, temos a cena brutal em que o que faz – um novo conceito de violência na escola – ele justifica dizendo que é uma lei divina. Meninas não podem/devem ser alfabetizadas. (Não pude deixar de lembrar do pastor evangélico em Ex-Pagé, de Luiz Bolognesi – todo o conhecimento adquirido pelo índio na floresta é coisa do Diabo.) Meu Ódio Será Sua Herança/The Wild Buch, de Sam Peckinpah – a camaradagem masculina. Os tanques, na áspera paisagem afegã – ecos de A Fera da Guerra/The Beast of War, de Kevin Reynolds, um dos grandes filmes pouco valorizados dos anos 1980. E, em pleno século 21, a guerra ainda anda a cavalo. Os Cavaleiros do Buzkashi, de 1970, talvez o último grande filme de John Frankenheimer, após uma década prodigiosa (a dos anos 1960). Imagino que muita gente vá descartar 12 Heróis como mera patriotada. Eu vi um interessante estudo de personagens, e desenvolvido num estilo visual ‘sujo’. A guerra (quase) como experiência documentária, como ela é. O grandalhão do grupo arranja um anjo da guarda, um menino que tem de velar por ele, porque disso pode depender a sobrevivência de sua família. As cenas fornecem o chamado alívio cômico, mas eis que o menino é atinigido. Como age o fortão? Veja. No imaginário do personagem de Chris, como no de milhões de jovens americanos, existe essa noção do heroísmo, esculpida pelo próprio cinema. Na vida, veja-se Clint, o heroísmo é produto de circunstâncias – a maneira como cada um responde à crise. Em 12 Heróis, o heroísmo é a missão que os homens precisam realizar, e para isso precisam pegar juntos, o soldado bem armado e o chefe tribal. O choque de mundos e culturas está na essência de 12 Heróis.