Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » 007, um herói apaixonado

Cultura

Luiz Carlos Merten

06 Novembro 2006 | 16h10

Fui a Nova York convidado pela Sony para assistir a Casino Royale, que estréia no Brasil dia 15 de dezembro. Vi o filme na sexta à noite e, no sábado, entrevistei a produtora Barbara Broccoli, o diretor Martin Campbell, a bondgirl Caterina Murino, a bondwoman Eva Green e, claro, o novo 007, Daniel Craig. O filme é legal. Na verdade, são dois filmes em um – uma superaventura movimentada, para deixar o público sem fôlego, e uma história de amor emocionante, pois a idéia é mostrar um 007 emocionalmente vulnerável, porque apaixonado. Casino Royale foi o primeiro livro que Ian Fleming escreveu sobre seu personagem que virou ícone cultural. Teve duas versões, um telefilme (sério) nos anos 50 e uma paródia, nos 60. No livro, como diz a filha de Albert Broccoli (inventor da série, com Harry Saltzman), está a gênese de 007. Você já viu o herói apaixonado e a lembrança não é boa – 007 a Serviço Secreto de Sua Majestade desapontou o público, nos anos 60, por mostrar não apenas um 007 enamorado, mas incapaz de proteger a mulher amada (e ela morre). O público odiou. George Lazenby, que fazia o papel, era fraco demais, como ator, para carregar o estigma desse 007 louco de amor. Daniel Craig convence muito mais, mas o projeto envolve uma margem de risco. Todo filme é sempre uma aposta, dizem Barbara Broccoli e o diretor Campbell (dos dois Zorros e de 007 contra Goldeneye). Depois de fazer um James Bond de quadrinhos, Campbell investe agora no pathos do herói. Não, você não vai ver nenhum Dostoievski, explorando os limites abissais da alma humana, mas um 007 com consistência dramática. O roteirista, by the way, é Paul Haggis, de Menina de Ouro e Crash – Sem Limite. Você poderá até não gostar, mas veja. Foi o que pediu Daniel Craig. Surgiram no orkut várias comunidades do tipo ‘eu odeio Daniel Craig’, ‘eu odeio o novo 007’. Nem haviam visto o filme, mas não gostavam porque ele é loiro, é atarracado, é feio. Curiosamente, Daniel está mais próximo da descrição de Ian Fleming do que Sean Connery e sempre é bom lembrar que o próprio Fleming não aprovou, inicialmente, a escolha de Connery para o papel, achando que ele era muito ‘working class’, muito trabalhador, muito ‘pobre’ para vestir smoking e tomar Don Perignon. Connery foi o 007 que todo mundo sabe. Inicia-se nova era com Daniel Craig. Ele talvez seja melhor ator do que qualquer 007 precedente, acreditem. E não é só ele – há uma bondgirl arrasadora (Caterina Murino), se bem que com Eva Green esteja se iniciando a verdadeira nova fase, a das bondwomen. O problema é que haverá uma perda e ela é que vai determinar a construção futura (na verdade, a passada) do personagem. Vai ser bom falar de Casino Royale, quando o filme estrear. São mais de 40 anos de história (e de cinema). É a franquia mais bem sucedida da história do cinema (sem contar a mais longa, a japonesa É Preciso ser Homem). Duvido que você nunca tenha vibrado com 007, nunca tenha se divertiodo com ele. Neste tempo todo, 007 sofreu todo tipo de mutação. Sobreviveu ao feminismo, ao fim do comunismo, mas ficou um tanto diluído. O herói imbatível prepara sua revanche. O problema é que ele, agora, um herói apaixonado. Prepare-se!

Encontrou algum erro? Entre em contato