Uma noite no Brooklin
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Uma noite no Brooklin

Júlio Maria

23 Outubro 2017 | 22h38

Eu era Arnold Schwarzenegger decaído em Os Mercenários quando entrei com a guitarra nos ombros naquele bar do Brooklin. Estava sem aparecer em um contexto como aquele havia umas duas décadas e boa parte daquelas pessoas estavam nascendo quando tocávamos nas noites de sábado do Persona, Bexiga, São Paulo, 1996. O Persona, na Rua 13 de Maio, foi a última residência fixa do inferno, um território livre ocupado por criaturas das páginas de Pedro Juán Gutiérrez. Músicos, traficantes, jornalistas, prostitutas, poetas, sonhadores, viciados, depressivos, perdedores e apaixonados que terminavam a noite, às 7h da manhã, jogando xadrez enquanto o sol nascia e nós carregávamos os Chevettes com guitarras e amplificadores. Antes de sentarmos às mesas, era preciso olhar bem para ver se havia uma carreira de cocaína demarcando o lugar ocupado. Eles eram nossa plateia fiel habitando um sonho surrealista emoldurado por muita fumaça de cigarro e rock and roll que se abria como um portal nos sugando para outra dimensão.

Vinte anos depois no bar do Brooklin, não encontrei vestígios daqueles personagens da era medieval pré-internet. Estávamos lá reunidos, a banda, para o show de aniversário de uma amiga, Carla, a única fã viva do Rockett 88 de que se tem notícia. A última vez em que Carla nos viu foi há 15 anos, quando tocamos em sua garagem, na Vila Mariana, até as sirenes da polícia chamada pelos vizinhos decretarem o fim da festa. Olhei para o baixista, meu amigo Wladimir, e o convidei como quem precisa de um guarda costas em meio àquelas criaturas perigosamente jovens. “Cara, preciso de uma cerveja.” Seguimos até o bar e eu recebi um golpe antes mesmo de tomar o primeiro gole de cerveja, a seiva mágica que deixa toda a humanidade em condições de igualdade.

Uma garota simpática do balcão nos perguntou se conhecíamos o facebook da casa, mas preferiu ser cautelosa. “Ah, você não está no facebook, imagino?”, disse, olhando pra mim. A discrição não é o forte de meu amigo Wladimir, e ele adora me enterrar vivo nessas situações. “Ah, meu amigo é velho assim mas tem facebook.” Estava ficando frio e achei que deveria sumir antes da próxima frase. Tomei os goles da coragem e voltamos para dentro, onde uma banda tocava antes da nossa. Um baita som, dominado involuntariamente por uma baixista de cabelos ruivos, tatuada, batom bem vermelho e um sorriso jovem e demolidor. Eles tocaram Jet e Strokes com energia, levando a casa a pular no mesmo ritmo. Antes de entregar o palco, resolveram fechar com Rage Against The Machine, algo como tirar o pino de uma granada e pedir que a segurássemos. Qualquer coisa que viesse depois de Killing In the Name seria considerado música de ninar. Olhamos entre nós, olhei para o set list e comecei a envelhecer mais 20 anos pela segunda vez em menos de vinte minutos. Nossa primeira música seria Can’t Get Enough, do Bad Company. Fofa, e talvez não muito mais do que isso. Nós e nossos Crosby, Stills and Nash, Clapton, Stones e Elvis Costello éramos criaturas de um outro tempo.

Aí subimos ao palco – eu, Wlad e os irmãos Martins, Eric e Deni, baterista e vocalista, – e passamos a tocar para Carla. Era um show surpresa, nossa primeira reunião em quatro anos e a primeira que ela assistia em quinze, algo que em nossas mentes ocupava uma manchete de jornal do tamanho do anúncio de um retorno mundial do Who. Estávamos ali vivos, depois de casamentos feitos, desfeitos e refeitos, pais que partiram, filhos que chegaram, cabelos que partiram, barrigas que chegaram. O boteco do Brooklin era nosso Allianz Parque e Carla e suas amigas, além do cara da mesa de som e dois jovens que assistiam da calçada com os olhos brilhando, eram nossa imensa plateia ocupando pista premium e arquibancada. Assisti a grandes shows em minúsculos bares que valeram por três Rock in Rio, e talvez tenhamos feito um desses. Como presos libertos, tocamos Let Me Roll It, de Paul; The Weight, do The Band; Dead Flowers, dos Stones; Blame it on Cain, do Costello; e I’m so Proud, de Jeff Beck, Tim Bogert and Carmine Appice como se tivéssemos apenas uma noite. Há 15 anos, quando tínhamos 25, nosso concerto na garagem de Carla acabou porque os pobres vizinhos chamaram a polícia. Agora, a magia aconteceu de novo, e ouvimos o ultimato de um funcionário como a vitória de um rock and roll que não fica velho. “Pessoal, os vizinhos estão loucos. Ou abaixa o volume ou vão chamar a polícia.” Eu já era Hugh Jackman em Wolverine quando saí com a guitarra nos ombros daquele bar do Brooklin.

Jagger e Ron Wood, em foto da Reuters, podem estar em um bar bem próximo de você