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Júlio Maria

12 Fevereiro 2016 | 18h16

Seu Domingos foi se embora cedo demais. Só tinha 72 anos quando deixou a sanfona solitária no canto de seu quarto do Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, onde tratava de um câncer no pulmão havia sete meses. Viu com desgosto a família discutir sobre seu corpo imobilizado quando já estava bem perto do fim. Um dos filhos em conflito com a última mulher num daqueles casos de duas verdades e muita dor. Domingos viu tudo sem poder mover um músculo. Imaginei que deveria estar desejando a morte nos instantes que sentia a vida lhe fechando as portas. Mas aí lembrei quem era Seu Domingos e parei de pensar bobagens. Mesmo quando não estava na festa, a festa vibrava em seu sorriso.

A partida de Domingos, dois anos e meio depois, dá a certeza daquilo que sentimos quando a notícia de sua morte chegou. Uma nação estava órfã, solitária, entregue ao Deus dará. Uma nação não exatamente traçada por linhas geográficas, territoriais, mas diluída dentro de um País inteiro no jeito de falar, sorrir, receber, abraçar. Com Luiz Gonzaga e seu nomeado sucessor Dominguinhos, o que era comportamento virou cultura e o mundo tomou conhecimento de que havia um Brasil dentro do outro. A pátria de Seu Domingos, com música, passou a ser afirmada de dentro para fora e de fora para dentro. O orgulho do nordestino se impunha à chacota e o preconceito do não nordestino era enfraquecido diante de um monumento chamado Dominguinhos.

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O mais espetacular era a forma de Seu Domingos em pulverizar as descrenças depositadas em seu povo. Ele simplesmente sorria. Sorria a vida toda. Seu rosto era uma enorme lua sorridente e sua conversa não era apenas com o homem que vinha do sertão, mas com o sertão que existia em cada homem. Se quisesse, colocaria sua sanfona (acordeom, dizia ele, era nome inventado pelos “bacanas” do Sul que tinham vergonha das origens) a serviço do jazz e dos eruditos. Quando o fez, à frente de orquestras em grandes salas de concerto, deixou o mundo embasbacado. Seus dedos sabiam os caminhos do improviso, das modulações, das escalas “metidas a besta”, de tudo o que se precisava para ser aceito nas academias e nos salões. Mas não. Sua prosa era com o povo e, se preciso, segurava os dedos para não deixar de tocar como se saboreasse lentamente um bom baião-de-dois.

Músico que colocava os dedos pra correr mais rápido do que as batidas do coração aprendia com ele. Yamandú Costa foi assim. Jovem e ansioso, o violonista gaúcho vivia aos atropelos com as melodias em cada uma de suas explosões emocionais até o dia em que tocou com Dominguinhos. A beleza maior não estava na velocidade, mas em duas ou três notas colocadas no lugar certo, tocadas na hora oportuna.
Sem Domingos, a “nação” que com ele ganhou identidade ficou sem heróis pela primeira vez em muitas décadas. Não sem os criadores que nasceram pelas bandas do norte, esses são muitos e brilhantes, mas aqueles que não fizeram outra coisa a não ser carregar pela vida a terra de seu quintal. Seu Domingos foi o último deles. E quase três anos depois de sua morte, no dia em que completaria 75 anos, fica mais certo de que não haveria sucessor que desse conta de ser um novo Dominguinhos.

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