Liniker e a cidade perdida
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Liniker e a cidade perdida

Júlio Maria

10 Outubro 2017 | 11h36

Existe uma linda cidade no quilômetro 23, entre as montanhas do ódio e os campos da paixão, que estamos deixando de avistar. O caminho até ela, por uma estrada de árvores tranquilas e floridas que se encontram no céu, tem se apagado rapidamente. Sim, é um alerta. Eu mesmo, que a conheço de primaveras passadas, tento voltar, mas confesso que tem sido difícil. Da última vez, estava à mesa com pessoas das mais articuladas e livres que conheço, que respeito profundamente por seus dons e entregas, quando decidi abrir uma fresta da porta proibida para tentar avistar meu elo perdido. E o que vi foi a besta fera que a guarda bufando em minha direção, pronta para o jantar. Fechei a porta  às pressas e peguei um caminho mais suave.

 

Liniker em ação no Festival Mimo de Paraty, em imagem de Beto Figueroa

A tomada de posição nunca foi tão necessária, mas quem disse que ela só habita dois polos? Somos programados para sermos sempre contra ou a favor. Depois de ganharmos camisetas de times de futebol para os quais teremos de torcer não por paixão a algum time mas por negação aos times dos tios que nossos pais odeiam, nascemos sob a desconfiança de nossas respostas ao interrogatório de admissão à vida inteligente: gostamos mais de Lennon ou McCartney, Beatles ou Stones, Elis ou Gal, rock ou MPB, rap ou funk, música clássica ou música eletrônica. Se dançarmos com Michel Teló, estaremos automaticamente excluídos das fileiras eruditas; se frequentarmos a Sala São Paulo, seremos acadêmicos demais para entender o espírito rock and roll; se chacoalhamos a cabeça ouvindo ‘Back in Black’, do AC/DC, não seremos dignos das delicadezas de Tom Jobim.

A peneira do gostar ou não gostar piora muito quando o assunto deixa de ser música (olho de novo pela fresta da porta para tentar avistar a cidade perdida). O debate que trazem Liniker, As Bahias e a Cozinha Mineira ou Johnny Hooker é dos mais urgentes, necessários, saudáveis, instigantes, transformadores. Ainda que não sejam os primeiros a fazer isso, não deixam de fazê-lo com coragem. A primeira vez que vi Liniker à frente dos Caramelows, senti o arrebatamento sedutor provocado sobretudo por uma imagem e um discurso que têm justificado toda sua prosperidade de carreira precoce e sua visibilidade midiática. E aqui (sussurro baixinho para não acordar a fera) é onde pode estar o problema.

Quando colocamos o discurso, a imagem ou qualquer outro artefato à frente da música, temos, na verdade, alguns problemas. 1. Ouvi-los como cantores deixa de ser tão importante e passamos a nos satisfazer com suas narrativas de superação em um jogo injusto com o próprio artista, que tem suas supostas qualidades enterradas por nossos interesses e expectativas políticas que nada têm a ver com música. 2. Arrebatados por seu discurso incisivo, os colocamos para cantar em frente a multidões muitas vezes antes mesmo que estejam preparados para elas, num processo invisível chamado fritura. 3. Ao oferecermos o paraíso da consagração antes do tempo, corremos o sério risco de que nossos eleitos acreditem em nós. E então, quando retirarmos as redes de proteção tecidas por qualquer interesse que nos desviem de suas habilidades musicais, eles podem não ter estofo para ficarem de pé. (Já posso ver a besta se mexendo).

Sem nunca deixarmos o debate e as conquistas de lado, valorizando cada tijolo derrubado para a formação de uma consciência nova sobre respeitos e liberdades irrestritas de gênero que Liniker tem liderado com maestria, como em sua recente passagem pelo festival Mimo, de Paraty, precisamos começar a ouvi-los como artistas na mesma intensidade que os escutamos como estandartes. Sei que pode parecer que estou querendo passar o carro na frente dos bois, que o tempo precisa de tempo para fazer seu trabalho e colocar as coisas em seus lugares, mas não tem sido confortável não poder falar de música quando me refiro a uma cantora do vulto de Liniker sob o risco de ser enviado para os campos de concentração dos homofóbicos ou seja lá a escória que for. Ao vê-la no palco de Paraty com as mesmas fragilidades que sempre percebi em sua banda e em seu canto, pensei em como poderia falar tudo o que falo sobre qualquer artista em uma crítica livre. O fato de ter pensado isso já é sinal de que algo está errado.

Então, em respeito à artista, aqui vai uma breve crítica livre. Liniker tem uma ideia de interpretação que não se torna real. Seu canto tem forte inspiração nos discos que certamente escutou de soul brasileira e norte-americana dos anos 70 – Etta James, com certeza – mas sua voz não chega às virtudes deixadas pela escola. Ela é frágil em sua suposta firmeza, quando ameaça sair no improviso, e o que falta é mais estudo e treino do que entrega, que transborda de seu corpo. Há um potencial genético promissor, um elástico pronto para ser esticado, e ela pode arrasar quarteirões de Rock in Rio quando dominar isso. Sua banda ainda é magra, sem produzir a pressão para o som que propõe. O baterista carece de pegada e o guitarrista de protagonismo, embora todos saibam bem do conceito mais discreto dos melhores sidemen da soul music. São, contudo, mais amadurecidos do que as meninas das Bahias e a Cozinha Mineira, ainda cantando com a postura vocal agressiva de quem protesta, em busca de um rosto melhor definido. A música cantada por Liniker segue pelo terreno seguro, surpreendentemente óbvio em contraste com toda sua coragem fora dos palcos.

(A fera se aproxima mas não fecho a porta. Tarde demais. Aqui vão, então, minhas últimas palavras:) O pior que poderia acontecer a uma geração que busca ocupar um espaço na música brasileira, com todos os parafusos que podem apertar, é a segmentação. Agrupá-los e tratá-los como se fizessem uma espécie de música de gênero seria criar um subgênero musical para abrigá-los e, ao mesmo tempo, distanciá-los de tudo mais que se produz de interessante em seu tempo. Olhar para Liniker ou qualquer outra cantora de discurso potente e afirmativo como bravas guerreiras não é o bastante para colocá-las na história. Se fosse apenas o bruxo das Alagoas, Hermeto Pascoal já teria derretido. Se fosse só a ativista racial, Nina Simone seria um nome distante. Além do que dizem, precisamos nos arrebatar também por sua música. Estaremos então um andar acima do preconceito quando aqueles que não forem tocados por ela puderem dizer sem medo da besta fera, como os habitantes da cidade perdida:”Eu não gosto”.