Os últimos imortais
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Os últimos imortais

Júlio Maria

13 Janeiro 2016 | 14h13

Paul McCartney: 73 anos. Eric Clapton: 70. Elton John: 68. Mick Jagger: 72. Keith Richards: 72. Roger Waters: 72. Jimmy Page: 72. Chuck Berry: 89. Little Richard: 82. David Gilmour: 69. Ringo Starr: 75. Neil Young: 70. Pete Townshend: 70. Roger Daltrey: 71. John Fogerty: 70. Jeff Beck: 71. Robert Plant: 67. Brian Wilson: 73. Bob Dylan: 74.
O rock está batendo de frente com a crueldade da finitude, traindo as promessas de nossas infâncias e sucumbindo à patética mortalidade. As partidas de David Bowie, aos 69 anos, e de Lemmy, aos 70, o tornaram menos criativo pela primeira perda, mais domesticado pela segunda e perigosamente perto do fim por todas elas. O próximo tombo não será mais a despedida de um herói, mas outro punhado de terra nos sonhos de quem aprendeu a adorar homens de aço, inatingíveis, onipotentes e onipresentes, criaturas prontas para aliviar as dores do mundo desde os nossos 15 anos, merecedores de um salvo-conduto da morte por todos os dias que nos salvaram.

A era dos imortais está simplesmente seguindo a lei da natureza. Eles nascem, crescem, nos viciam e somem. O problema é que nunca estamos preparados para perdê-los e, agora, precisamos encarar a verdade que ninguém quer dizer: em uma década, não teremos mais nenhum desses homens nos palcos. Em duas, eles já não estarão nos estúdios. Em três, voltarão para os seus planetas. E nossos netos crescerão adorando rostos que nunca viram, saudando avós que cultivaram o estranho hábito de se reunirem em multidões para assisti-los, chorando com as luzes dos celulares acesas.
Ídolos capazes de embargar a voz de 50 mil pessoas em um estádio cantando “shine on you crazy diamond” ou “speaking words of wisdom, let it be” não serão mais criados não por falta de mão de obra, mas pelo fechamento das fábricas. Gravadoras, rádios, jornais e TVs perderam, para o bem e para o mal, seus poderes aglutinadores. Se antes cantávamos as mesmas canções, seguimos hoje com nossas trilhas pessoais guardadas no mais absoluto segredo de um fone de ouvido. “Só restaram no mundo 25 atrações capazes de encher estádios”, diz o empresário Roberto Medina, sempre que anuncia uma próxima edição cada vez mais minguada do Rock in Rio.
A história vai lembrar do período clássico do rock, compreendido entre 1954, com a massificação promovida por Elvis Presley, e 2000 e alguma coisa que a história vai decidir, com a implosão dos ídolos de aço. Um tempo de menos de 100 anos, exatamente como viveu a música erudita em seu classicismo, entre 1750 e 1820, quando Beethoven, Mozart e Vivaldi tinham fãs bem mais comportados. Se a história do rock repetir a da música clássica, imaginemos o futuro. Grandes bandas, de músicos tão competentes quanto anônimos, apresentando em 3020 uma série de concertos com a obra completa dos Rolling Stones. Guitarristas virtuosos fazendo, nota por nota, revisitações aos solos de Hendrix e Eric Clapton. Universidades de música analisando a proposta dos Beatles aos formandos de 3027.
O futuro sem Bowie, Paul, Clapton e Lemmy, no entanto, não será um deserto porque todos estarão lá assim que um garoto de 15 anos, ao aprender seu terceiro acorde na guitarra, convidar outro para o baixo. Acharão facilmente um terceiro disposto a tirar a velha bateria do armário e a deixar que ensaiem em sua garagem. Eles vão fazer a contagem e, no quatro, começarão ‘Let Me Roll It’ com a mesma força que Paul McCartney usou um dia para arrebatar seus antepassados em algum estádio de futebol do século passado.

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