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Música cada vez mais de fundo

Júlio Maria

21 Janeiro 2016 | 18h56

Seria suspeito se fosse eu falando, o tiozinho que anda pela Pompeia em uma Variant 1971 e que assusta seus entrevistados quando coloca sobre a mesa um gravador Panasonic de fita cassete comprado na Rua Santa Ifigênia. Mas quem fala é Carlos Freitas. Freitas é o maior engenheiro de masterização do País. O cara que o iTunes habilitou para remasterizar sons gravados nas eras do LP e do CD para que eles passassem a habitar com qualidade o universo do streaming. Um homem que trabalhou duro para a indústria do disco e que, agora, anda a serviço dos novos tempos. Ou seja, se quisesse vender o próprio peixe, Freitas diria o contrário do que me disse: “A música está perdendo o seu protagonismo”.

A frase tem mais lógica para quem habita a Terra há pelo menos 30 e poucos anos, mas eu, preocupado, tenho falado muito sobre ela com meu filho de 14. Há alguns dias, ele pediu para eu colocar o vinil ‘The Dark Side Of The Moon’, Pink Floyd, 1973. Eu tinha que aproveitar o raro momento em que um garoto que ouve Mumford and Sons por streaming tentava deixar o pai feliz. Ok, respondi, desde que ele topasse a experiência completa. Coloquei a agulha um pouco antes da quarta faixa do lado A e, enquanto ela corria em direção à música, apaguei as luzes e pedi para deitarmos no chão da sala. Ouvimos o sinistro som do despertador que abre a gravação e entramos na atmosfera sinistra de David Gilmour e Roger Waters. “Isso dá medo, pai”, ele disse. Depois de imóvel pelos 6:54 minutos da canção, pediu para ouvir outra.
Com meu pai, foi até mais intenso. Em uma de suas visitas, pedi que se sentasse na poltrona diante do toca discos e coloquei o LP em que Nat King Cole canta boleros em espanhol, o mesmo que ouvimos tantas vezes quando minha mãe era viva. Coloquei o LP e saí, deixando o velho com suas lembranças. Ao voltar para a sala com uma cerveja, percebi que ele chorava de soluçar. Um choro sentido mas apressado, do pai querendo se livrar logo das lágrimas para o filho não ver. Meu primeiro impulso foi confortá-lo, trocando ‘Quizás, Quizás, Quizás’ por um Roberto Carlos qualquer, mas não. Fiquei sem ação por segundos e resolvi não fazer nada. Eu não tinha o direito de interromper aquele baile que só tinha espaço para meu pai, minha mãe e Nat King Cole.
Não importa se ouvimos música em toca-discos, toca-fitas, iPhone, iPod, radinhos de pilha ou ao vivo. O que define sua importância em nossas vidas é o quanto somos realmente capazes de deixá-la entrar em nossas correntes sanguíneas. O LP não é melhor do que o streaming, mas nos apegamos a ele como o símbolo da era de ouro da audição por uma razão justa: quando ouvimos um LP, o mundo tem de parar. Mais do que emocional, é uma necessidade física. Ninguém pode carregar um toca discos pelas ruas enquanto passeia com o cachorro. Ninguém coloca um Gradiente dentro de um carro. Os toca-discos nos ancoram diante da experiência.
Os anos 90 trazem os CDs, uma conquista da mobilidade e a primeira perda do protagonismo. Se nos permitem ouvir canções em muito mais lugares, os CD players dos carros, mais eficazes do que os toca-fitas, tiram a música do centro para torná-la cenário. A atriz principal começa a virar figurante. Estamos agora sempre mais preocupados em não atropelarmos um pedestre do que em percebermos as sutilezas do solo que Eric Clapton fez para ‘Something’, dos Beatles. Canções disputam espaço no cérebro com buzinas, placas, faróis e freadas.
As novas mídias radicalizam esse movimento, libertando mais a música de suas amarras e tornando-a, ainda que sob a ‘invisibilidade’ dos fones de ouvido, poderosamente onipresente. Nunca ouvimos tanta música e nunca ouvimos música tão mal. Sua disputa acirrada com os sete sentidos reduziu nosso poder de absorção emocional e o que nos devia atingir o coração tem parado nas camadas mais superiores da pele. É assim que Justin Bieber funciona mais do que Chet Baker, ou que qualquer criação feita com volume, linearidade rítmica e graves suficientes para chegar na frente dos outros sentidos terá mais chance de sobreviver do que a sutileza de um trompete tocando jazz com surdina.
A coisa é séria. Muitos produtores, sobretudo de artistas do hip hop norte-americano, preocupados em grudar a voz de seus clientes no cérebro dos ouvintes, têm trabalhado duro para isso. As masterizações comprimem os sons em seu limite, colocam o volume nas alturas e são pensadas para atingir regiões específicas do cérebro como se gritassem ao ouvinte: “Cara, agora você vai me escutar”. É uma atitude pensada. “Os médios e agudos são reforçados para que entrem no cérebro em meio a tantas informações do dia a dia”, diz Carlos Freitas. Na era do desespero, os artistas chutam a porta dos tímpanos para invadir os cérebros, mas nem sempre chegam ao coração.
Depois de fazer esta entrevista com Freitas, cheguei em casa disposto a mudar de vida mudando alguns minutos do dia. A TV deixou o trono, na região mais valorizada da sala, e foi pregada na parede. Quem ocupa aquele posto desde então é um toca-discos alemão Thorenz, anos 70, devidamente plugado a um amplificador Marantz. Os vinis ficam logo atrás, um após o outro, colorindo a sala com capas que gosto de substituir de vez em quando. Assim que compro um novo LP, chego em casa com 15 anos de idade, quando corria para saber o que sairia daquelas faixas. Ao menos naquele território, a música voltou a ocupar a frente do palco.