João Gilberto no pancadão
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João Gilberto no pancadão

Júlio Maria

04 Maio 2018 | 20h57

Eu não sabia muito bem qual seria minha estratégia para convencer o vendedor de toca-CDs a refazer toda a instalação de som que havia tornado a vida dentro de minha Variant um inferno desde que decidi ter 19 anos de novo. Eu só queria um som um pouco mais definido do que o que saía da caixa de abelhas afixada debaixo do painel, uma potência não maior do que o radinho de pilha em que meu tio adorava ouvir Milionário e José Rico nas manhãs de domingo. De repente, o som subnutrido que saía do meu aparelho Volkswagem 1971, quando Carole King lançava sua versão de ‘You’ve Got a Friend’ e o Bread dava uma forcinha no aumento das taxas de natalidade do mundo com ‘If’, havia se tornado uma AR 15 disparando contra meu cérebro todas as vezes em que o baixista resolvia ir para a região mais grave de seu instrumento. Quando percebi que ouvia as músicas torcendo para que os baixistas fizessem levadas da quinta casa do instrumento para frente, resolvi voltar ao vendedor de toca-CDs. “Mas o que você quer? Hoje, é assim que se ouve música”, me disse Jorjão, indignado com minha observação não muito técnica sobre os momentos em que os graves ameaçavam expulsar o pára-brisas traseiro da Variant. “Eu só queria que o som me abraçasse”, respondi, apostando em um suave apelo poético que bateu e voltou em forma de tapa. “Acho que você está precisando de uma namorada.”

Um baile funk, por Vidal Cavalcante – Estadão

A estratégia da defesa de Jorjão era muito melhor do que os meus ataques, devo reconhecer. Para justificar a presença imprescindível de um subwoofer de dez polegadas no porta-malas da Theodora – algo me dizia que eu não deveria contar a Jorjão que a Variant tem o nome de Theodora ¬- ele desqualificava meus argumentos com habilidade ativando o cruel botão do tempo. “Esquece esse negócio de baixo, o pessoal agora fala batida, pancadão. O som tem que fazer tremer.” Eu tentei de novo. “Jorge, eu cresci ouvindo LP, podendo ver Steve Ferrone tocar bateria na sala de minha casa enquanto Eric Clapton fazia o solo de ‘Have You Ever Loved a Woman’ sentado na ponta da minha cama. O que acontece agora é que Natan East tem engolido todos os dois com uma única nota de seu baixo. Por favor, tente resgatar meus heróis das profundezas desse grave maldito e faça uma justiça histórica.”

Irredutível em suas teses desenvolvidas em altos e baixos falantes de bom som desde os primeiros Motorola que instalou na vida, o homem já falava em receber o equipamento de volta e devolver meu dinheiro enquanto ouvia meus bravejos cada vez menos poéticos. “Jorge, nada contra, mas não quero ouvir funk carioca nem abrir o capô da Variant para promover um fluxo de pancadão na Avenida Pompeia. Só queria poder escutar mais de um instrumento soando em um disco do Ray Charles.” A palavra disco já havia sido dita, mas desta vez ele não deixou que ela passasse. “Disco? Você já está errado, meu caro. Coloca as músicas em um pendrive ou conecta seu celular no aparelho com um cabo USB para ouvir o Spotfy. Você vai ver que a qualidade será a mesma, tirando a compressão dos arquivos que acaba eliminando alguns sons desnecessários desses músicos que fazem arranjos demais e que, em geral, não fazem falta alguma. E algumas frequências agudas que estão sendo usadas depois que descobriram que o cérebro reage a elas como se ouvisse a sirene de uma ambulância, uma pequena dose de cocaína no sistema nervoso de um ouvinte menos atento.”

“Calma, vamos por partes”, pedi a Jorjão. “O homem não saiu das cavernas em uma Maserati. Deixa eu curtir meu estágio intermediário de evolução.” Algo sempre me disse que esse negócio de empilhar mais de 1.100 músicas em um brinquedo de plástico de dois milímetros de largura não daria certo. Jamais aprisionaria Miles Davis naquela solitária sem direito a banho de sol. Não teria coragem de jogar ‘Lamento Sertanejo’ em uma masmorra com outras mil músicas que eu amaria do mesmo jeito e que, portanto, me fariam enterrá-la involuntariamente para redescobri-la ao acaso em dois ou três anos.

Jorjão me olhou sério sem dar sinais de que sua próxima frase se tratava de uma piada: “Faz assim, coloca um toca-discos no carro para você poder ouvir seus LPs!”. Eu o levei a sério e pedi detalhes até perceber seu silêncio e sua expressão de desânimo o fazendo abaixar os decibéis da voz: “Vamos ver se sua agulha sobrevive aos buracos da Ministro Rocha Azevedo”. Ele falava agora em tom de despedida: “Você não vai ouvir música no carro como ouve na sala de sua casa, meu caro. Ou se rende ao pancadão ou fica com o seu radinho de pilha.”

O pancadão. Aqui é a parte da história que os roteiristas da nouvelle vague chamariam de revirement. Agora, dentro de um silêncio súbito, me lembro de ter sido preenchido por um daqueles sentimentos que o homem ainda não nomeou, uma sensação que faz ruborizar as maçãs do rosto e estalar os olhos como se víssemos o próprio sobrenatural. Claro, um pancadão! Algo me dizia que nem Ludmilla nem Neguinho do Caxeta haviam registrado a ideia e que, se eles podiam, toda combinação de notas musicais minimamente organizadas também poderia. Pedi a Paulão que parasse de retirar os fios de Theodora e que deixasse tudo como estava, incluindo os graves do subwoofer. “Mudou de ideia, meu caro?” “É, acho que pode ser divertido”, disse, em um misto de agradecimento e pedido de desculpas.

A estreia de Theodora Pancadão não será esquecida tão cedo pelo casal do carro ao lado, parado no farol da Augusta com a Paulista. Não sei porque os escolhi, talvez pelo tamanho do carro em que estavam e por algum grau de preconceito com a idade de números inferiores a 30 me dizerem que seriam prováveis irradiadores das produções do Kondzilla e de Anitta em toneladas de decibéis. Assim que o CD de Stevie Ray Vaughan foi sugado, o painel acendeu as luzes azuis e o volume foi parar no 38. ‘Pride and Joy’ jorrou como as sirenes do apocalipse, com a guitarra de Stevie transpassando corpos com um raio que parecia chegar até ao Conjunto Nacional. Explosiva, Theodora se tornava um carro bomba, com a precisão de nunca atingir apenas o alvo pretendido. O casal fechou os vidros e acelerou depressa.

Ainda guiado pelo anjo mau da vingança, resolvi fazer o primeiro pancadão da história com João Gilberto. Confesso que fiquei nervoso quando ‘Chega de Saudade’ deslizou pela boca do aparelho até chegar ao leitor ótico e, dali, ganhar os falantes e o canhão traseiro. Foi primeiro assustador ouvir a quantidade de graves que um violão sozinho poderia produzir e, logo depois, um prazer escutar a voz de João cristalina em um volume que jamais ouvira antes. As pessoas olhavam e sorriam não sei ainda se de prazer por ‘Chega de Saudade’ sair de uma espécie de carro da pamonha vitaminado ou de escárnio pela cena toda. Estávamos indo muito bem, com crianças apontando a Variant para seus pais e casais de velhinhos sorrindo pelas calçadas, até que uma onda formada por uma frequência de graves incontrolável se ergueu do banco de trás inundando tudo e engolindo o violão e o próprio João Gilberto com uma bocada só. ‘Chega de Saudade’, de repente, se tornara uma criatura amorfa e pesada, pronta para ganhar as batidas de um DJ de funk bass.