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Chico Buarque, um desconhecido

Júlio Maria

28 Janeiro 2016 | 17h02

As palavras, de repente, devem ser bem escolhidas, medidas, sem metáforas que abram as portas do duplo sentido. Isso pode, isso não pode. E quando escrevo e apago uma terceira tentativa, chego à conclusão de que está tudo errado. Não há o que temer. Chico Buarque de Hollanda é um mestre dos rodopios verbais. Sabe como poucos dizer o certo por palavras tortas desde que treinava seus discursos debaixo da borracha dos censores. Era tão bom nisso que chegou a enganar a todos quando mandou Apesar de Você para análise da censura. Os militares acharam que falava de uma briga de namorados e liberaram a canção. Ninguém mais do que Chico entende de uma necessidade que está além do falar o que se quer falar que é a do falar o que quer ser dito. Então, o meu assunto é Chico Buarque de Hollanda.

Chico tem razões justas para defender a honra nos tribunais. Açoitado nas redes sociais por suas posturas políticas, deixou a tolerância transbordar ao ver sua família agredida. Fez o que todos deveriam fazer, levando o assunto para a Justiça. Uma semana depois, a notícia mais lida nos sites já é outra: “Chico Buarque tem nova namorada: saiba quem é a felizarda”. E aparece então a foto da atriz Monica Torres. Há um elo entre os insultos que sofre por suas inclinações políticas, a forma como foi abordado na rua por jovens com câmeras de celulares ligadas e a curiosidade pela exposição de suas novas namoradas. Chico, mais do que seus pares Gil, Caetano ou Milton, se tornou um prêmio. Celulares o perseguem, fotógrafos caçam suas namoradas e blogueiros o provocam com uma sanha que deve dar saudades dos tempos em que os inimigos eram apenas jornalistas.
Sua parcela de culpa nesta condição de caça existe e está no fato de que, também bem mais do que seus pares, Chico criou para si um personagem inatingível e encastelado no silêncio, a ponto de fazer seus detratores se esquecerem de que corre sangue naquelas veias. Sem conceder entrevistas nem para lançar livros, subindo cada vez menos aos palcos para longos shows, se tornou a cabeça do boneco no tiro ao alvo: quanto maior a distância, maior o prêmio ao atirador.
A fama é mais cruel aos que não sabem o que fazer com ela e, no caso de Chico, esse status não foi nem mesmo uma escolha. Afinal, o que mais poderia fazer com tanta música e poesia saindo de sua cabeça? Afogá-las em nome de uma vida comum? As opções não eram muito animadoras. Vandré exilou a alma. João Gilberto trancou o violão. Belchior foi morar em uma nuvem. Ao saber que tamanha consagração cobraria um preço, Chico assinalou a única alternativa impossível: manter ao mesmo tempo a glória e a paz. Até que assegura uma boa fatia de vida encontrando amigos para o futebol, correndo à tarde no Leblon e passando para tomar um café na Livraria Argumento, mas ninguém se divorcia da fama por não dar entrevistas. Ainda que demore, ela sempre reaparece para buscar sua parte no trato.
Chico tem reforçado a muralha. Aos poucos jornalistas que entraram em seu camarim no show da Mangueira, em que participou com Maria Bethânia, no Rio de Janeiro, as ordens eram claras, como relatou o jornal ‘O Globo’: “Namorada nova, processos que move contra pessoas que o insultaram na rua e em redes sociais e até as inofensivas perguntas sobre a escola de samba eram assuntos proibidos”. Como não se pronuncia também sobre outros assuntos, nenhuma pergunta foi feita. Chico, mesmo com argumentos convincentes para ter a opinião pública a seu lado nos casos que está levando à Justiça, prefere não falar. E como não fala e canta cada vez menos, restam poucas entradas para se conhecer um homem que nem os discos mostram e que só documentários como o belo ‘Chico – Artista Brasileiro’ se mostram insuficientes. Um Chico Buarque generoso, de humor arrebatador e afetos sanguíneos, contador de histórias cheias de graça que podem até não terminar se sua represa de memórias transbordar e as inundar com um riso irresistível. Um Chico muito maior do que o “compositor de alma feminina” ou o “simpatizante das esquerdas”, suas versões reducionistas mais citadas. Vítima de seu próprio silêncio, Chico não conquistou o anonimato, mas se tornou um desconhecido.