A lista de Tom Zé
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A lista de Tom Zé

Júlio Maria

17 Outubro 2017 | 19h49

Tom Zé me ligou. Uau, pensei, Tom Zé me ligando. “Julio, querido, quero te fazer um pedido.” “Diga Tom”, eu disse. Quantas vezes na vida um homem desses me pedirá algo? Eu precisava sorver cada segundo. Saí de minha mesa e fui para o corredor do jornal, o refúgio dos agoniados. “Oi Tom, pode dizer”. “Uma música, Julio. Eu quero fazer uma música e ter você como parceiro.” Enfim, o dia chegou. Depois de Augusto de Campos, Rita Lee, Elton Medeiros e Vicente Barreto, o mundo conheceria a força da parceria Tom Zé e eu. “Mas o que é isso, Tom? Quem disse que eu componho alguma coisa?” “Julio, o negócio é o seguinte…” E foi aí que minha carreira erguida sete segundos antes começou a desmoronar.

Tom Zé em casa, nas Perdizes, e bem à vontade, em foto de Tiago Queiroz / Estadão

“Eu quero fazer uma música que fale dos políticos honestos. A gente sempre fala dos maus, eu queria fazer o contrário.” Minha cabeça pesou e as paredes amarelas do corredor passaram a se movimentar em minha direção. “Sim, eu quero que você me ajude a fazer essa lista, a encontrar esses bons políticos.” “Sei, Tom, sei.” “Você, com o conhecimento aí do jornal, pode me ajudar a levantar isso?” “Claro”, eu disse. “Tom, você é doido”, pensei. “Pronto, aí me manda a lista e nós assinamos juntos”. “Certo”, eu disse. “Nem pensar”, pensei. Mas Tom é Tom, e eu me dispus honestamente a ajudá-lo. Mais do que ser pautado pelo chefe para conseguir uma entrevista com João Gilberto, eu ganhava um desses estímulos ao contrário que a vida nos dá para seguirmos vivos. Ou não. Antes de desligar, me enchi de coragem. Eu iria ajudar Tom Zé a fazer seu ‘Nome aos Bois’ ao contrário.

O dia seguinte foi de muita conversa. Fui atrás de amigos jornalistas e não jornalistas, pelo jornal e fora dele, e comecei partindo de nomes que eu mesmo julgava honestos, com toda a fragilidade provocada por minha falta de memória temporal e pelos buracos deixados pela preguiça que me abate diante das páginas policiais que os vampiros habitam. Depois de uma breve reflexão, resolvi jogar a toalha. Não haveria nome algum para a música de Tom. Ele precisava ser alertado do risco que corria, e eu devia falar isso a ele. Liguei. “Tom, não mexe com isso. Político se não fez, ou está fazendo ou vai fazer. Imagine uma música sua com o nome de um homem desses que, amanhã, será descoberto em um novo escândalo”. Mas Tom estava irredutível. Ele queria que eu tentasse mais um pouco. “E outra, Tom. Imagine que, se tiver um ser de um partido, tem de ter de outro, e de outro, e de outro.” “A gente consegue”, ele insistiu. Desliguei e voltei a pensar.
Antes de enterrar minha parceria com Tom Zé, um pouco menos poética do que imaginei, confesso, decidi derrubar um critério que adotei logo no início. Em vez de me concentrar apenas em gente viva, exumaria alguns corpos para checar seus bolsos. E assim, depois de desclassificar quarenta dos sessenta nomes possivelmente honestos que não passaram incólumes pelo filtro de respeitosos jornalistas políticos que ouvi, fiquei com vinte.

Voltei ao critério dos vivos pensando que Tom queria escrever uma música, não o obituário de um jornal. Dos vinte, um almoço com um grande amigo repórter, cheio de imagens de notas verdes nas lembranças, derrubou mais dez. E então, quando estava para entregar minha delação premiada a Tom Zé, explodiu o escândalo da Operação Lava Jato e uma nova lista fez a minha se espatifar em mil pedaços. Joesley Batista havia alimentado a sanha de mais de 1.800 políticos em pagamentos de propinas milionárias. Era o fim, mas entreguei assim mesmo os meus dez nomes a Tom, uma lista que não revelo nem negociando com Deus o perdão de meus piores pecados, rezando para que ele desistisse da ideia. Na manhã de hoje, depois de entrevistá-lo para um programa da Rádio Eldorado sobre os 50 anos da Tropicália, tomei coragem e voltei ao assunto. “Tom, e a música dos políticos?” “Rapaz, pensei no que você disse”, ele respondeu, desanimado, revelando o real golpe de misericórdia em seu projeto artístico cheio de boas intenções. “O STF era minha última esperança. Acabou.”