Músicas sem sentido para um povo sem História
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Músicas sem sentido para um povo sem História

Júlio Maria

05 Outubro 2017 | 20h14

Se a vida política e social de um povo pode ser contada pelas músicas criadas por este povo? Sempre acreditei que sim, que um instigante curso de História baseado em canções pudesse ao menos complementar os livros superficiais adotados pelo ensino formal, uma chatice de ceifar qualquer paixão pela histórica no nascedouro. Seriam dois coelhos, música e política, libertados por uma cajadada só. Os cronistas dos anos 30 e 40, eméritos professores Noel Rosa, Wilson Batista e Cartola, nos ensinariam sobre o Brasil não oficial de Getúlio Vargas, o início da vida organizada nos subúrbios e toda a formação da personalidade social que irá marcar o conceito e valores do brasileiro pelas próximas décadas.

Djavan e o zum de besouro, um ímã, em foto de Wilton Jr / Estadão

O samba canção iniciado pela gravação de ‘Copacabana’, de Dick Farney, em 1946, está cronologicamente alinhado à posse de Eurico Gaspar Dutra, que mandou fechar os cassinos todos e, sem pensar, claro, iniciou a proliferação das boates e o surgimento de uma nova música. Com um rabisco de caneta, faz desaparecer as orquestras e surgir formações pequenas para substituí-las em ambientes já contaminados pelo vírus do banquinho e violão.

A bossa nova abraçaria sorridente e ensolarada Juscelino Kubitschek e todo o otimismo com o Brasil do desenvolvimento dois anos depois de sua posse, com as cordas do violão de João Gilberto, a partir de 1959. Apenas quatro anos depois, a diáspora da mesma turma, já combalida, com um show no Carnegie Hall de Nova York, de 1962, coincidiria com a diáspora do próprio otimismo e a profecia do apocalipse cultural na era Jango que se consumaria em 1964. A era dos festivais, a partir deste ano, colocaria as mãos de ferro dos presidentes na balança. Depois de Castelo Branco, um principiante nas tesouras, os catedráticos Chico Buarque, Gil e Caetano, em 1967, respirariam os últimos ares de certa liberdade poética cantando as tensas ‘Roda Vida’, ‘Domingo no Parque’ e ‘Alegria Alegria’, já prevendo a tristeza que se abateria sobre qualquer tentativa de se falar em liberdade a partir de 1968.

O vazio existencial do início dos anos 70 é explicado pelo professor Ney Matogrosso, agente principal de toda a sensação de preenchimento necessária provocada pelos Secos e Molhados na passagem de bastão de Médici para Geisel, entre 1973 e 1974, quando pareciam restar apenas carnaval e cinzas. A distensão de João Figueiredo, no fim dos 70 e início dos 80, permite o desabafo dos roqueiros de Brasília, São Paulo e Rio; e o clima da redemocratização do início da Era Sarney ergue o primeiro Rock in Rio, em 1985. Música e letra seguem bem na função de historiadores de um tempo mesmo quando são proibidos de fazê-lo até que, em alguma sala de aula por volta de 1990, a agulha do toca discos começa a dar problema. A questão não é mais nem saber em que tempo vivemos, mas do que exatamente eles, os artistas, estão falando.

A extrema liberdade poética da música brasileira é filha da falta de liberdade poética do Brasil. Pois antes de o regime militar levar os compositores a afiar suas metáforas e elevar o nível de suas narrativas, o popular era popular mesmo, dando o recado em papo reto. “Quando eu morrer / não quero choro nem vela / quero uma fita amarela / gravada com nome dela”, cantava Noel, morbidamente romântico, em 1933. “Dia de luz, festa de sol / E um barquinho a deslizar / No macio azul do mar”, celebravam Menescal e Bôscoli em 1961, alguns antes que a embarcação naufragasse em águas revoltas.

O período de controle e de censura formaria ao mesmo tempo a geração de letristas mais talentosos da música brasileira moderna e a de militares com chances de serem os mais cultos de todos os tempos. Imagine a vida dos caras que ouviam em primeira mão, antes de todo o planeta, todos os discos de Milton, Chico, Caetano, Gil, Djavan, João Bosco, Jobim, Vinicius, Edu Lobo, Joyce, Rita Lee, Mutantes, Elis Regina e qualquer um que gravasse um mísero compacto de duas músicas. Era um furo atrás do outro, o sonho de consumo de qualquer jornalista de música. (Caramba, acabo de imaginar o contrário. Dependendo do lote de discos que pegavam naquele mês, poderiam ser eles mesmos os primeiros torturados pelo regime. Azar o deles).

Antes que o curso de História do Brasil pela Música Brasileira terminasse (olha que a ideia tem dono!), houve um último semestre que contemplou aulas imperdíveis ministradas pela turma de docentes Mano Brown, KL Jay, Edi Rock e Ice Blue. A própria existência do rap, dimensionado finalmente como gênero de MPB pelos Racionais MC’s, significava que as coisas não iam bem e que os tentáculos do Estado perdiam alcance e entregavam a população à própria sorte. O termômetro funcionava também ao contrário. Os últimos anos de otimismo econômico do povo brasileiro, compreendidos no alvorecer dos anos 2000, fez a linha dura e combativa do rap sofrer uma crise de existência e dar espaço a uma frente de menos protesto e mais festa. Isso, claro, até que a festa acabasse.

Sem mais um inimigo visível, a música brasileira a partir dos anos 90 promove a liberdade ao cargo de licença, poética ou não, e a narrativa de figuras de linguagem tiradas das células tronco dos compositores vigiados pelo regime passam a nortear gerações de novos compositores. Alguns se dão bem com a herança genética, outros nem tanto. Em resumo, que diabos Nando Reis quis dizer quando escreveu que “é uma índia com colar / A tarde linda que não quer se pôr / Dançam as ilhas sobre o mar / Sua cartilha tem o A de que cor?” Qual a razão de frases entoadas por fãs do Rappa que se emocionam com “se eu ousar catar na superfície de qualquer manhã as palavras de um livro sem final! Sem final! Sem final!”, e, por mais uma vez, e com acento, “sem final!”

As imagens nunca ou pouco compreendidas da música pop brasileira constam em uma longa lista – e não vale falar mais de Djavan. Sempre achei um exagero colocá-lo no mesmo balaio dos incompreensíveis, por isso fui a ele pedir a explicação: “Djavan, as pessoas podem sentir algo de sua música mesmo se não entenderem letras como ‘açaí, guardiã, zum de besouro, um ímã, branca é a tez da manhã?”’ E ele respondeu: “Quando o sujeito quer penetrar no universo que o poeta sugeriu, tem de ler o texto algumas vezes. Um poeta querido por todos, e que tem uma poesia que requer muita introspecção, é o Federico García Lorca. Poesia se alcança ou não. Acho uma coisa louca as pessoas não verem sentido em uma associação como ‘açaí, guardiã’. Como não pode haver sentido? Fale com qualquer pessoa do Norte, que é onde essa fruta dá em abundância e mantém uma população inteira, que você vai ver que ela entenderá tudo. Açaí, guardiã do povo. É ela que guarda, que sustenta aquela existência.” E prossegui: “E o ‘zum de besouro, um ímã’?” E ele: “Eu adoro a mata, e não há barulho na mata que não me leve até ele. Fico aflito para saber quem o está produzindo, por isso o ímã.”

As letras vão perdendo assim o protagonismo emocional para as melodias até que não seja mais necessário entendê-las para sentir. Assim, cantamos canções das quais não damos mais a mínima para seus sentidos, e muitas vezes nos emocionamos mesmo assim. Se a música for boa, o que importa o que diz o cantor? E se o cantor for Djavan, alguma coisa muito boa ele está querendo dizer. Música e História estão divorciados, e tenho uma aposta para a razão disso: decidimos apagar por antecipação qualquer vestígio dos dias em que estamos vivendo.