Vasco Mariz, musicólogo (1921-2017)

Vasco Mariz, musicólogo (1921-2017)

Um dos mais importantes pesquisadores da música brasileira, ele estava com 96 anos e deixa palestra sobre o Padre José Maurício Nunes Garcia

João Luiz Sampaio

16 Junho 2017 | 13h06

Quando, em 1947, Vasco Mariz publicou em Portugal Figuras da música brasileira, deu início a um trabalho de pesquisa que se tornaria referência para quem quer entender os caminhos da produção musical no País ao longo do século XX. Foi o primeiro biógrafo de Villa-Lobos, por exemplo, assinando também livros sobre autores como Claudio Santoro e Francisco Mignone. E seguiram-se mais de cinquenta livros, em uma trajetória encerrada na manhã de hoje, quando o musicólogo morreu, aos 96 anos, no Rio de Janeiro.

Mariz teve uma trajetória ímpar. Formou-se cantor lírico, mas também na Faculdade de Direito. Da academia, seguiu para uma carreira como diplomata, tornando-se embaixador e ocupando postos em países como Portugal, Argentina, Itália, Estados Unidos, Equador, Israel, Peru e a Alemanha Oriental. E precisou deixar o canto para trás.

“Procurei conciliar as duas carreiras; dei muitos recitais aqui e no exterior e só desisti depois de uma turnê de 8 concertos em 20 dias nos Estados Unidos, em 1952. Foi horrível repetir o mesmo recital, fazer os mesmos gestos, pegar o trem e correr para outra cidade, lutar com o acompanhador, com medo de resfriarme etc. Saí-me bem e o empresário quis me contratar, mas disse-lhe que não: tinha uma boa carreira, família, duas filhas pequenas e não queria essa vida de andarilho musical. Não me arrependi. Cantei em público ainda uma vez em 1957, em Nápoles, no Teatro di San Carlo, o papel de Alvise Badoero na Gioconda. Fui aplaudido, mas a notícia chegou aos ouvidos do embaixador em Roma que me repreendeu: se fosse vaiado, era o Brasil vaiado, porque eu era o cônsul do Brasil em Nápoles. Nunca mais”, contou ele em 2011 ao compositor Ricardo Tacuchian, em uma entrevista publicada na Revista Brasileira de Música, publicação da Escola de Música da UFRJ.


Se o canto ficou para trás, a ligação com a música continuaria, agora como pesquisador. Difícil assinalar, em mais de seis décadas de produção, as obras mais importantes. Mas é certo que trabalhos como A canção popular no Brasil, História da Música no Brasil e A música no Rio de Janeiro no tempo de D. João VI são referências incontornáveis pelo que se propõem, como afirmou o musicólogo André Cardoso, em recente texto publicado no site Tutti Clássicos. “Seu trabalho como musicólogo seguiu a trilha aberta por nomes como Renato Almeida e Luiz Heitor Correa de Azevedo. O primeiro prefaciou seu livro de estreia, o Dicionário Bio-Bibliográfico Musical, publicado em 1948. No mesmo ano lançou, em Portugal, Figuras da Música Brasileira Contemporânea e A Canção de Câmara no Brasil. Já Luiz Heitor assinou o prefácio do pioneiro Heitor Villa-Lobos, Compositor Brasileiro, publicado em 1949 pelo Ministério das Relações Exteriores. Nas décadas seguintes, suas obras foram constantemente reeditadas, sempre ampliadas e atualizadas. Em 1981, surgiu seu livro mais importante, História da Música no Brasil, mais uma vez prefaciada por Luiz Heitor. É, sem dúvida, uma obra referencial, na qual desenvolveu uma visão de conjunto de nossas atividades musicais, desde o período colonial, sempre se valendo das muitas relações pessoais que estabeleceu com diferentes gerações de compositores brasileiros.”

Presidente da Academia Brasileira de Música, Cardoso informou na manhã de hoje que “Vasco, com sua grande capacidade de trabalho e força intelectual, continuou produzindo até poucos dias”. “Deixou pronta uma palestra que seria por ele proferida na Antiga Sé do Rio de Janeiro no próximo dia 20 de junho às 14 horas nos eventos comemorativos dos 250 anos de nascimento do Padre José Maurício Nunes Garcia. O evento, sob a coordenação de Ricardo Tacuchian, está mantido e será uma forma de homenageá-lo por tudo que fez e representou para a música brasileira e para a própria ABM”.

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