Uma conversa com Elisso Virsaladze

Uma conversa com Elisso Virsaladze

Grande pianista russa é a presidente do júri do V Concurso Internacional BNDES de Piano do Rio de Janeiro, que começa amanhã. E dispara: "Virtuosismo? Hoje são todos virtuoses. Um bom candidato é alguém que me faça querer sair de casa para ir ouvi-lo em uma sala de concertos", diz

João Luiz Sampaio

30 Novembro 2016 | 16h51

Um jornalista perguntou certa vez a Sviatoslav Richter a respeito de uma recente gravação feita por ele de obras de Schumann. O lendário pianista russo foi um dos grandes intérpretes da obra do compositor. Mas, ao responder, ele jogou o foco na direção de uma colega. “Se você me pergunta sobre Schumann, não há no mundo alguém de interpretá-lo como Elisso Virsaladze”. O comentário ajuda a dar a dimensão da importância da pianista que, além de atuar em grandes palcos de todo o mundo, também é professora em Moscou e tem ajudado a formar gerações de artistas cuja atuação nasce menos do virtuosismo e mais da inteligência musical.

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Virsaladze já esteve no Brasil algumas vezes, mas desembarcou na manhã de hoje no Rio de Janeiro com uma missão diferente: vai presidir o júri do V Concurso Internacional BNDES de Piano do Rio de Janeiro, organizado por Lilian Barreto. O concurso é o mais importante do cenário nacional. Além das edições bienais, realiza séries de concertos, além de oferecer bolsas a jovens de estudos a jovens pianistas. A nova edição começa amanhã, quinta, dia 1º, e vai até o dia 10. As eliminatórias e semifinais, na Sala Cecilia Meireles, assim como as finais, no Theatro Municipal do Rio, são abertas ao público. Ao lado de Virsaladze, compõem o júri Dang Thai Son, Irineu Franco Perpetuo, Linda Bustani, Luis Ascot, Piotr Paleczny e Tamás Ungár.

“Presidente do júri é um título oficial, mas não se deixe enganar por ele. Minha opinião é tão importante quanto a de meus colegas”, ela se adianta em conversa agora há pouco, por telefone. “Nunca me interessei por títulos pomposos, são outras as coisas que importam”. Ainda assim, a pergunta é inevitável: o que ela procura em um candidato? “Eu gostaria de escolher um pianista interessante. Alguém que eu gostaria de sair de casa para ir ouvir em uma sala de concertos, ou que lançasse um CD que me deixaria ansiosa para escutar. Um virtuoso? Ora, hoje são todos virtuosos. Fico mais interessada em outras coisas. Mas se você me perguntar o que um pianista precisa ter para me deixar com vontade de ouvi-lo, deverei dizer que é difícil responder. Não se trata, com certeza, de todas as notas certas no lugar certo, mas da capacidade de fazer música.”

E é possível, no ambiente competitivo de um concurso, que é o retrato de um momento especifico do artista, perceber isso? “Eu não conheço nenhuma outra possibilidade para um pianista de alcançar visibilidade. Como professora, você conhece com o tempo grandes músicos que não conseguem desenvolver uma carreira. É algo realmente difícil, além de estar preparado, de fato estabelecer uma carreira. O concurso é importante pois ele te oferece espaço, os vencedores recebem contratos, fazem concertos e, com isso, a carreira começa a decolar, eles são ouvidos pelas pessoas, pelos maestros, por outros músicos, pelo público.”

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