Sergio Roberto de Oliveira, indivíduo a serviço do coletivo

Sergio Roberto de Oliveira, indivíduo a serviço do coletivo

Compositor e produtor musical, que se dedicou a criar espaço para a música contemporânea, morreu no Rio de Janeiro aos 46 anos, vítima de um câncer; sua última obra, "Na Boca do Cão", revelava o grau de refinamento artesanal atingido por sua escrita

João Luiz Sampaio

19 Julho 2017 | 12h28

Um dos mais ativos profissionais da cena clássica nacional, o compositor e produtor musical carioca Sergio Roberto de Oliveira morreu na madrugada desta quarta-feira, dia 19, após mais de um ano de luta contra um câncer no pâncreas. A família informa que seu velório será realizado no Memorial do Carmo, a partir das 16 hoje, até a cremação, que será feita amanhã, quinta-feira, dia 20, no mesmo local.

Oliveira foi indicado duas vezes ao Grammy Latino: em 2011, na categoria Melhor Composição Clássica Contemporânea e, em 2012, pelo CD Prelúdio 21 – Quartetos de cordas. O Prelúdio 21 é um coletivo de compositores, com uma proposta interessante, reunir autores em prol da divulgação da música de hoje, unindo esforços e estabelecendo uma rede de contatos com intérpretes.

O projeto é significativo do trabalho de Sergio Roberto de Oliveira: seja no grupo, seja como diretor artístico do selo A CASA Discos, que lançou mais de trinta discos desde o final dos anos 1990, ele sempre esteve preocupado não apenas com a divulgação de sua obra, mas com a criação de espaço para a criação contemporânea como um todo. Seu credo era claro: um ambiente musical favorável ao novo, algo que só poderia nascer de um esforço coletivo, naturalmente abriria espaço para a criação individual dos autores,.


Falamos sobre isso em uma entrevista de 2015. “Precisamos fugir da relação de poder entre intérprete e compositor, segundo a qual o autor depende da encomenda de uma obra para ser tocado. Há uma percepção de que, se não houver papel ativo na divulgação da música, as coisas não aconteceriam. E há outra coisa: a força do coletivo. Eu como compositor, individualmente, não conhecia intérpretes suficientes para ter minha música tocada. Com um grupo, somos capazes de organizar concertos regulares, com todos tendo suas obras interpretadas. Tão importante quanto ser tocado, no final das contas, é criar um mercado para a música contemporânea em geral”, disse.

A preocupação com o coletivo, naturalmente, não significou a ausência de uma voz profundamente pessoal como autor. Há duas semanas, estive no Rio de Janeiro para assistir sua primeira ópera, Na boca do cão, em cartaz até o dia 30 de julho no Centro Cultural Banco do Brasil (o espetáculo é tema de matéria a ser publicada por esses dias no Caderno 2). A produção nasceu de uma parceria com a soprano Gabriela Geluda, o poeta Geraldo Carneiro e o diretor teatral Bruce Gomlewsky. É impressionante o grau de refinamento artesanal atingido por sua escrita que, com economia de recursos, é capaz de evocar diferentes ambientes e flutuar entre passado e presente, esfumaçando de maneira dramaticamente eficiente qualquer noção linear ao narrar uma história que, no final das contas, fala de memória e das contradições da experiência humana.

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