Osesp 2013: mudanças de curso em programação consistente

João Luiz Sampaio

17 Outubro 2012 | 14h13

Repertórios atraentes e diversificados; a presença de grandes solistas e maestros convidados, incluindo a estelar contralto francesa Nathalie Stutzmann como artista residente; uma nova turnê europeia; a continuação de um projeto consistente de gravações; o aumento no número de concertos da regente titular Marin Alsop: após um turbulento período de transição, a programação 2013 da Osesp parece sugerir enfim a normalização das atividades da orquestra – assim como aponta, em alguns aspectos, uma mudança de curso do diretor Artur Nestrovski em sua segunda temporada com o grupo.

Veja a programação completa da Osesp para 2013

A primeira diz respeito ao próprio tema da programação. A ideia de um eixo condutor para a temporada surgiu neste ano, mas a temática proposta, “Música em Tempos de Guerra e Paz”, revelou-se muito ampla e, na prática, acessória. Nesse sentido, apostar em uma homenagem à “Sagração da Primavera”, de Stravinski, é não apenas conceitualmente mais interessante como leva a realizações mais concretas, como a encomenda de uma obra que, cem anos depois, possa dialogar com uma das principais criações da história do século 20.

No que diz respeito às encomendas de obras a compositores, a alteração é ainda mais significativa. Nestrovski parece ter abandonado o diálogo entre o erudito e o popular (com músicos como Paulo Bellinati e Edu Lobo produzindo peças para orquestra sinfônica) como proposta estética dominante da programação. O crossover ainda está presente, com um “Concerto para Violino” de Francis Hime (que será estreado por Cláudio Cruz) ou um recital em que o pianista e compositor André Mehmari vai improvisar sobre temas da MPB, mas a música de invenção voltou a ter espaço significativo. A escolha de autores, no entanto, ainda que diversificada, é conservadora e repete alguns nomes da história recente do grupo. Dos oito autores, Marlos Nobre, André Mehmari e Clarice Assad já escreveram para a orquestra; e Edson Zampronha e Eduardo Guimarães Álvares não escreverão para grande sinfônica mas, sim, para coro a cappella e tímpano e percussão, respectivamente. Ainda no universo da composição, duas sutis alterações: a ideia de abrir o ano com uma fantasia sobre o “Hino Nacional Brasileiro”, que nos últimos anos rendeu peças programáticas de gosto duvidoso, foi abandonada; e o posto de “compositor residente” ganhou nome apropriado, “compositor visitante” (em 2013, a russa Lera Auerbach, radicada em Nova York).

Entre os maestros, além da volta de alguns nomes, como Richard Armstrong, Osmo Vänskä, Alondra de la Parra e Rafael Fhrübeck de Burgos, é de se comemorar a maior presença de Frank Shipway, que fará três programas com o grupo: o francês Yan Pascal Tortelier pode ter o título de regente convidado de honra, mas tanto no que diz respeito à qualidade dos concertos como na relação entre músicos e maestro, é o britânico o favorito da orquestra.

A ópera, bastante presente nas temporadas da antiga gestão artística da Osesp, parece mesmo estar fora do radar do grupo. Nestrovski afirma que, com o Teatro São Pedro e o Teatro Municipal bancando suas produções, não vê muito sentido em se dedicar a este repertório, apesar da prática ser comum em orquestras de centros como Viena e Berlim. Ainda assim, ele diz considerar a possibilidade de, a partir de 2014, programar atos completos de óperas em versão de concerto. No entanto, a ausência desse repertório no ano do bicentenário dos principais autores da ópera do século 19, Wagner e Verdi, levanta dúvidas sobre a intenção, ainda que, do compositor alemão, a Osesp faça a estreia brasileira do interessante arranjo de Hans Werner Henze para as “Wesendonk Lieder”.

No campo institucional, 2013 também terá mudanças: em junho, ocorre a renovação do conselho da Fundação Osesp – e nela haverá troca nos cargos de presidente e vice-presidente, ocupados por Fernando Henrique Cardoso e Pedro Moreira Salles desde a implementação da fundação, em 2005.