Orquestra Sinfônica de Porto Alegre inaugura sua primeira sede em 67 anos

Orquestra Sinfônica de Porto Alegre inaugura sua primeira sede em 67 anos

Casa da Música, criada a partir da adaptação do auditório de centro administrativo do governo, foi aberta no sábado, com concerto do grupo; projeto substituiu antigo plano de construção de uma Sala Sinfônica no Parque Maurício Sirotsky

João Luiz Sampaio

27 Março 2018 | 09h51

PORTO ALEGRE – Um dos nós mais bem amarrados da música clássica brasileira dos últimos anos começou a ser desatado na tarde do último sábado, com a inauguração da Casa da Música da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre. A sala de concertos é o primeiro passo da substituição do projeto original da sede da orquestra, que se arrastava há quase duas décadas – sem horizonte claro de resolução.

A história começa bem antes de sábado. Criada há 67 anos, a Ospa ocupou diversos espaços na capital gaúcha, mas nunca teve uma sede própria. Até que em 2002, na esteira da inauguração da Sala São Paulo, a orquestra lançou as bases de um projeto de construção de uma Sala Sinfônica. A princípio, ela seria instalada no Shopping Total, mas desentendimentos com os moradores da região levaram o projeto – idealizado pelo engenheiro Ismael Solé – para o Parque Maurício Sirotsky. Grupos ambientalistas, que temiam pelo impacto provocado pela construção, juntaram-se a arquitetos (que questionavam a falta de licitação na encomenda do projeto) em mais polêmicas. Mas, em 2012, as obras tiveram início.

Quatro anos depois, quando o espaço já deveria estar inaugurado, o quadro parecia pouco promissor. “Se a construção da sede da Ospa fosse identificada com um gênero narrativo, provavelmente seria uma série de longa duração, que entra neste 2016 em sua décima quarta temporada”, escreveu Fábio Prikladnicki no jornal Zero Hora. “O mais recente episódio dessa trama, que começou em 2003, foi um impasse entre o governo estadual e a empresa vencedora da licitação, que paralisou os trabalhos há um ano e meio foi parar na justiça. O canteiro de obras no Parque Maurício Sirotsky Sobrinho mostra um cenário desolador: a vegetação cobre as fundações, que custaram R$ 3 milhões, e os tapumes estão caídos, deixando a área suscetível ao furto de materiais – o que já ocorreu”, continua o texto, que mostra ainda como, em meio a disputas legais, até mesmo falhas na construção das fundações foram identificadas.

No ano passado, no entanto, o caminho da Ospa em busca de uma sede própria mudou de rumo, indo parar no Centro Administrativo Fernando Ferrari (Caff). Idealizado nos anos 1960, construído nos anos 1970 e ocupado a partir de 1987, o complexo de forma piramidal nasceu com o objetivo de concentrar as principais secretarias de estado do Rio Grande do Sul. Em uma de suas áreas centrais, o projeto previa um grande auditório, que foi construído mas logo abandonado, tornando-se uma área de depósito de materiais. “Há 15 anos, desde que se começou a falar em um espaço para a Ospa, eu imaginava esse espaço como uma possibilidade”, conta o maestro Evandro Matté, que antes de se tornar diretor artístico, em 2013, atuava como trompetista do grupo desde os anos 1990. “Mas sempre apoiamos os planos que haviam sido propostos pela direção e essa ideia acabou ficando de lado.”

Em meados do ano, no entanto, Matté resolveu encampar a ideia de transformar o auditório em uma sala de ensaios, inaugurada no segundo semestre. Mas logo a sala de ensaios, com uma eventual reforma, começou a se parecer com uma possível sala de concertos. “Em 27 anos de orquestra, vivi com a falta de um espaço nosso. Quando assumi a direção, me pareceu claro que era uma questão que eu precisava resolver de alguma forma.” Começava ali uma articulação que envolveria o governo, a orquestra, a secretaria de Cultura, o Ministério Público e o Ministério da Cultura. O espaço foi cedido por 25 anos à orquestra, que correu entre janeiro e o último sábado para preparar a sala, instalando mais de 200 placas acústicas, além de 1.100 poltronas, iluminação e assim por diante, num valor total de R$ 5 milhões. Em uma segunda fase, outra área do complexo, num total de 900 metros quadrados, vai abrigar salas de estudo, uma sala própria de ensaios para a Ospa Jovem e uma sala de câmara. A Ospa também recebeu a autorização para ocupar o Palacinho, antigo palácio do vice-governador, onde serão instaladas a administração da orquestra e sua escola de música, hoje com 250 alunos (a capacidade física, agora, será para 400 estudantes). E o terreno no Parque Maurício Sirotsky? Em um futuro ainda difícil de precisar, vai abrigar uma concha acústica para apresentações ao ao livre.

No concerto de sábado, a grande questão girava em torno da expectativa com relação à acústica, em especial por conta do pé direito baixo do auditório. A orquestra interpretou uma nova obra de Arthur Barbosa, Mba’epu Porã; a Rhapsody in Blue, de Gershwin (como solos de Cristian Budu); e a Sinfonia nº 9 – Do Novo Mundo, de Dvorák. Há naturalmente acertos a serem feitos. Em especial no Gershwin, ficou clara a necessidade de maior equilíbrio, com o piano sendo totalmente encoberto em algumas passagens. Mas, ao mesmo tempo, e o Dvorák foi prova disso, a sensação é de que há material a ser trabalhado com o ajuste das placas acústicas.

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A cada celebração relacionada às obras no Parque Maurício Sirotsky, um violino era enterrado como gesto simbólico. A que conclusões um arqueólogo do futuro chegaria ao escavar a região e encontrar os instrumentos? O comentário espirituoso feito há alguns anos pelo jornalista Irineu Franco Perpetuo em uma das edições do podcast Papo de Música da Revista CONCERTO revela uma sensação generalizada no meio musical a respeito das poucas probabilidades da sala, por questões financeiras e políticas, ser de fato construída. A imagem dos violinos sob a terra vem à mente quando se passa pelo terreno. Onde estariam enterrados? Difícil saber. Mas, no caminho para o Caff, ainda é possível ver as pequenas bandeiras brancas que demarcam sobre a superfície a posição das fundações das obras.

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A decisão de abandonar o projeto antigo foi, acima de tudo, pragmática – uma tentativa, de certa forma, de corrigir erros e previsões equivocadas do próprio governo e da orquestra. A conta da Ospa parece relativamente simples. Em um texto publicado no jornal Zero Hora em fevereiro, os diretores da orquestra afirmam que o custo da sala original já havia ultrapassado R$ 40 milhões e que, ainda que uma emenda parlamentar houvesse destinado R$ 20 milhões ao projeto, os recursos não estavam à disposição. E o que fazer com relação aos outros 20 milhões? Isso para não falar dos problemas legais relacionados às construtoras e ao questionamento a respeito da funcionalidade das fundações que haviam sido construídas. “Além disso, a questão da gestão do espaço me preocupava”, diz Matté. “Ele exigiria um alto custo de manutenção, que seria um desafio financeiro para nós. É preciso compreender o contexto que estamos vivendo no país e aqui na região sul em especial.”

O texto na Zero Hora, na verdade, foi uma resposta a uma entrevista concedida por Ismael Solé dias antes. Nela, ele questiona a decisão de abandonar o projeto da Sala Sinfônica da Ospa. “Não é uma troca de endereço. É a desistência de uma sala de alta qualificação para ser a sede permanente da sinfônica”, ele diz, afirmando que o auditório jamais terá “excelência internacional”. “É um espaço aproveitável como lugar de ensaio da Ospa. (…) O problema que vejo é que não teremos uma sala sinfônica (no Centro Administrativo). Teremos um auditório onde a Ospa vai tocar.”

Por trás desta discussão está o próprio conceito de uma sala de concertos. Uma sede própria pode significar ganhos importantes, fundamentais, não parece haver dúvidas. O primeiro deles é a formação de uma identidade sonora, que vem, entre outros aspectos, da regularidade de apresentações que um teatro próprio oferece. Mas não se trata apenas de questões artísticas. Uma sede com projeto arquitetônico arrojado pode se transformar em uma referência urbanística e, por meio disso, dar atenção à manifestação artística que abriga, fazendo dela cartão postal da vida cultural de uma cidade.

Mas um prédio em si não é garantia de inserção da atividade musical no contexto de uma cidade. É preciso, antes de mais nada, entender este como um papel das orquestras sinfônicas – e investigar de que forma ela pode desempenhá-lo. A lógica aqui se inverte. Não é a sala que determina o caminho a ser seguido – torna-se, antes, uma das partes de uma estratégia mais ampla a pautar a atividade da orquestra e seus sentidos possíveis. Nesse sentido, a Ospa oferece uma alternativa diferente, à qual vale a pena prestar atenção: sua “nova sede” se dividirá em três espaços: o complexo da Casa da Música, no Caff; a atividade pedagógica no Palacinho; e, eventualmente, a concha acústica no parque. Matté, em uma conversa após o concerto de sábado, diz enxergar essa divisão como uma vantagem: a Ospa, ele diz, estará espalhada pela cidade.

O desafio é, naturalmente, transformar os espaços físicos múltiplos em uma rede também múltipla de significados e diálogos com Porto Alegre. A inauguração da sala de concertos no sábado, assim, coloca fim a um imbróglio que parecia impossível de ser resolvido – ainda mais em um contexto de crise econômica e de desvalorização da cultura como o que vivemos. Mas o trabalho, isso não pode ser esquecido, está apenas começando.

 

Uma versão deste texto foi publicada na edição do dia 27/3 do Caderno 2