Manhã de sábado

João Luiz Sampaio

07 Março 2009 | 14h20

O “Caderno 2” publicou hoje uma entrevista com o diretor geral do Metropolitan Opera House de Nova York, Peter Gelb, com quem conversei sobre o projeto de transmissões de óperas do teatro nos cinemas. Você lê a entrevista aqui. Em resumo, o que ele diz é que a iniciativa deu resultados até agora, com 1,25 milhão de pessoas já tendo comparecido às sessões. Para ele, o importante é a ópera “colocar um pé na cultura contemporânea”. Não se trata, garante, de produzir montagens de olho no cinema e na televisão mas, antes, de usar a tecnologia para retratar e levar a um maior número de pessoas o que o teatro tem de melhor a oferecer. “Não podemos nos iludir achando que a ópera será ‘pop’, é um espetáculo que requer inteligência e sensibilidade. Mas também precisamos ter em mente a necessidade de torná-la acessível às pessoas, de quebrar barreiras entre teatros e platéias. Em tempo: amanhã, estréia por aqui a nova montagem do projeto, “Lucia di Lammermoor”, de Donizetti, espetáculo muito bonito cenica e musicalmente, com Anna Netrebko, Peter Beczala e Marius Kwicien (a regência é de Marco Armiliato). No Cine Bombril, Unibanco Arteplex e Unibanco Pompéia, às 17h.

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Também no ‘Caderno 2’ de hoje, Lauro Machado Coelho publica a crítica do concerto de quinta-feira de Yan Pascal Tortelier à frente da Osesp. “O final de Nimrod, um crescendo nas cordas que se desfaz, de repente, num impalpável pianíssimo, exige do maestro precisão e sutileza. Yan-Pascal Tortelier sabe o que faz. Para o seu primeiro contato com a plateia paulista, num momento particularmente delicado da história da Orquestra Estadual, escolheu as Variações Enigma, porque essa peça de Edward Elgar – série de 14 retratos de seus amigos e dele mesmo – oferece ao regente as mais variadas oportunidades de mostrar o que sabe fazer”, escreve ele. A íntegra você lê aqui.

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Nas leituras dos jornais agora de manhã não dá para passar batido pelas notícias sobre o caso da menina de 9 anos que estava grávida do padrasto, por quem foi estuprada. D. José Cardoso Sobrinho, arcebispo de Olinda e Recife, decidiu excomungar a mãe e os médicos responsáveis pelo aborto da menina, afirmando estar seguindo a “lei de Deus” e que mesmo o estupro não é crime tão grave quanto o aborto. Vivemos em mundo de quebra de valores, é verdade; é um mundo que se transforma rapidamente, gerando sensação de insegurança advinda da ausência de normas preestabelecidas que dêem conta dos desafios da sociedade moderna, algo que a sociologia denominou de estado de anomia, a sensação de se estar à deriva perante os processos coletivos e sociais. A conseqüência mais cruel de um quadro assim aparece quando a quebra de valores deixa de significar a possibilidade de nos reinventarmos como sociedade e justifica uma volta radical ao que há de mais asqueroso no ser humano: a intolerância e o conservadorismo barato. Quando fala em “lei de Deus” (interpretada por ele de maneira muito pobre, como mostra o colega Marcos Guterman em seu blog), d. José se exime de qualquer responsabilidade sobre sua atitude e apela a uma ideia de respeito às instituições que reduz o ser humano a nada, a uma fórmula maniqueísta e medieval de certo e errado. Deixo mais para os especialistas no tema e, para voltar ao assunto do blog, apenas aproveito para relembrar uma carta em que Beethoven fala a um conhecido advogado. “Sobre os nossos monarcas e seus impérios não lhe direi nada – os jornais contam tudo. A mim é mais querido o mundo do espírito e este está acima de todos os impérios terrestres e eclesiásticos”, escreve ele.