Lauro Machado Coelho, generosidade e amor à música

Lauro Machado Coelho, generosidade e amor à música

Uma lembrança do contato com o jornalista, crítico, professor e tradutor, que morreu nesta quinta-feira, 1º, aos 74 anos

João Luiz Sampaio

01 Fevereiro 2018 | 22h26

Foi no comecinho de 2000 que conheci Lauro Machado Coelho pessoalmente. Verde de tudo, eu dava os primeiros passos como repórter do “Caderno 2” quando fui pautado para entrevistá-lo por conta do lançamento de A Ópera Barroca Italiana, segundo volume da coleção História da Ópera. Lauro me recebeu em sua casa e conversamos durante toda uma manhã. Aos poucos, a barba branca já não assustava, revelando, na verdade, uma pessoa generosa, atenta a todas as perguntas (que, em boa parte, não deveriam ser das mais inteligentes) e cuidadosa na resposta. Mais do que isso: ao perceber meu fascínio com as paredes forradas de LPs, livros e CDs, colocou todo o seu acervo à minha disposição. E, uau, que acervo!

Nós nos reencontraríamos muito mais cedo do que eu imaginara. No sábado daquela mesma semana, sentamos lado a lado na Sala São Paulo para assistir um concerto da Osesp. O maestro Michael Tabachnik regia a Sinfonia nº 4 de Mahler (a solista era a soprano Gabriella Pace). Se a memória dos detalhes daquela tarde ainda está fresca é pelo impacto não apenas da música em si (foi minha primeira quarta de Mahler ao vivo), mas pela reação do Lauro. Ao final do concerto, as lágrimas corriam pelo seu rosto e me pareceu incrível que alguém com a experiência dele, que já ouvira aquela obra tantas vezes, fosse capaz ainda de se emocionar, sem cinismo. “Mahler, Mahler”, foram as palavras sucintas dele, com um sorriso já tomando lugar do choro. “Isso é a síndrome do arrepio: tem obras que mexem com a gente sempre, não importa quantas vezes as ouvimos.”

Poucos dias depois, o então editor do Caderno 2, Evaldo Mocarzel, me chamou para conversar. A partir daquele momento, Lauro assumiria a função de crítico de música clássica e ópera do caderno. Não demorou muito para que o telefone tocasse. Era o Lauro. “João, falei agora com o Evaldo e queria dizer que proponho que trabalhemos lado a lado, em parceria.” Foi uma gentileza com um foca que engatinhava na profissão. E dela nasceu nosso plano de trabalho: eu fazia as entrevistas, Lauro escrevia as críticas. Ao longo dos onze anos de atividade conjunta no jornal, nunca tivemos problemas ou desentendimentos, cada um ciente de seu papel, em uma equação que tinha ainda João Marcos Coelho, como colaborador do suplemento dominical Cultura.


A relação profissional tornou-se, muito rapidamente, apenas parte do contato cada vez mais próximo que mantínhamos. Lauro ainda não tinha e-mail naquela época, então salvava suas críticas em disquetes. Eu, a caminho da redação, passava em sua cada para retirá-los. E precisávamos, na verdade, tomar cuidado com o horário de fechamento, pois, uma vez em seu escritório, desenrolavam-se conversas que pareciam não ter fim, que começavam com considerações sobre o concerto ou a ópera da noite anterior e seguiam por gravações, maestros, obras. E, junto com o disquete, eu levava a tiracolo um livro, um CD, mais tarde um DVD. Foram momentos de enorme aprendizado, com um professor que ouvia o aluno e suas considerações com atenção que elas com certeza não mereciam. E, de maneira sutil, apontava direções.

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A obra de Lauro é vasta, mas possui elementos comuns que a definem. Em 1999, Décio de Almeida Prado, resenhando A Ópera na França, o primeiro volume da coleção História da Ópera, escreveu que ele é “um fenômeno raro no Brasil: a pessoa competente num determinado setor do conhecimento humano que não escreve tendo em vista apenas pessoas igualmente competentes neste mesmo setor”. A clareza era uma obsessão. Quando, anos depois de nos conhecermos, comecei a ensaiar a escrita de algumas críticas, não para publicá-las, mas apenas como exercício, ele insistia sempre nesse ponto: “Eu e você sabemos o que você quis dizer, mas será que o leitor também será capaz de compreender? Porque, se ele não for, o texto perde o sentido.”

A clareza era fundamental também porque Lauro pensava a criação musical à luz do contexto histórico em que ela surgia e também da biografia de seus autores. Parece óbvio, mas é um terreno escorregadio, no qual pode-se muitas vezes recorrer a releituras que jogam a obra para segundo plano e a afastam do ouvinte. Mas esse era um erro que Lauro evitava. O jornalista tinha obsessão pelos fatos; o jornalista especializado em política internacional entendia a arte em seu contexto histórico, social e cultural; o professor apostava na compreensão; e o apaixonado por música articulava todos esses aspectos para fazer da obra algo com que o leitor ou o aluno pudesse se relacionar de maneira direta, rica, entendendo que a arte era fundamental, em um nível individual, para a compreensão de nós mesmos.

É isso que faz da coleção História da Ópera um marco tão importante no mercado editorial brasileiro, ainda que o projeto não tenha sido concluído. Ficaram faltando os volumes dedicados a compositores específicos, como Verdi, Mozart, Wagner. Mas os volumes coletivos, dedicados a períodos ou países, são testemunhos de sua capacidade de estabelecer relações e pontes entre fatos a princípio estanques. Para o leitor, os mais de dez volumes terminados formam uma introdução não apenas à história da ópera, mas àquilo que faz do gênero algo tão fascinante.

Da mesma forma, suas biografias, editadas pela Algol, também preencheram lacuna gigantesca. E é significativo que, convidado a escrever uma série de livros sobre compositores, tenha fugido das escolhas mais óbvias, se dedicando a Liszt, Bartók, Sibelius, Bruckner e Berlioz, além de Shostakovich. Eram paixões suas, claro, mas dedicar volumes a eles era compartilhar com o leitor outra de suas qualidades, a curiosidade sem fim que o fazia se interessar por obras e autores pouco conhecidos, fazendo com que um dos esportes preferidos dos amigos fosse tentar surpreendê-lo com uma peça, uma gravação ou um autor obscuro (que ele, na maior parte dos casos, já conhecia, e sobre o qual acabava nos ensinando com naturalidade).

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Nos últimos tempos, falávamos sobre a possibilidade de editar uma coletânea de seus textos críticos publicados na imprensa. Um levantamento rápido nos arquivos do Estado revelou que, só no Caderno 2, entre 2000 e 2011, foram quase mil textos sobre música. E Lauro também fazia questão de recuperar seus textos sobre cinema no Jornal da Tarde, que considerava parte importante de sua produção jornalística e tratava com enorme afeto. Pois se a ópera era sua paixão, cinema, literatura, artes plásticas também faziam sua cabeça. Da última vez que estivemos juntos, no final do ano, levou daqui de casa livros de Albert Camus, que gostaria de reler (Lauro foi professor de francês e literatura francesa em Belo Horizonte e em São Paulo).

Lauro concordava que, vista em conjunto, sua atividade crítica ajudava a montar um panorama do que tem sido a vida musical brasileira. Mas ressaltava, sem paradoxos (e talvez com excesso de modéstia), que o texto jornalístico será sempre efêmero, voltado para o momento único do concerto ou da récita de ópera (sempre com generosidade e respeito, cuidados que fizeram dele uma figura querida entre a classe artística). Em outras palavras, só o olhar comprometido com o agora, com a crença no valor daquilo que é feito, é que poderia levar à formação de um corpo crítico que fosse além do presente para, no futuro, ajudar na compreensão do passado.

Neste último encontro, Lauro esteve em casa para trabalhar em um texto sobre La belle Heléne, de Offenbach, para o programa da montagem apresentada pelo Theatro São Pedro em dezembro. Apesar dos anos afastados do trabalho diário, a memória parecia intocada: relembrava com detalhe passagens do libreto, evocava outras obras do compositor. Com o texto pronto, assistimos juntos em DVD uma montagem do “Don Carlo”, de Verdi, uma de nossas paixões em comum. No carro, no caminho de volta, pediu para ouvir um trecho de uma sinfonia de Bruckner. Enquanto ouvíamos, lembramos da “síndrome do arrepio”. E daquele encontro na Sala São Paulo ao som da Sinfonia nº 4 de Mahler. Lauro era, como crítico, uma referência para a vida musical brasileira, para todos nós. Mas era também um amigo cuja generosidade e amor à música não serão jamais esquecidos.