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Honestidade, desfaçatez e uma história que se repete

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Honestidade, desfaçatez e uma história que se repete

Troca de comando na Fundação Theatro Municipal do Rio sinaliza ideias antigas a respeito do que são a música clássica e a ópera e se soma a um processo recente de relativização da cultura

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João Luiz Sampaio

23 Fevereiro 2017 | 08h40

O meio musical brasileiro levou um susto na manhã de ontem com a notícia da demissão do compositor João Guilherme Ripper da presidência da Fundação Theatro Municipal do Rio de Janeiro. O choque foi duplo. Primeiro, porque a gestão vinha sendo marcada por uma revitalização do teatro, com uma programação interessante e uma nova dinâmica interna, aberta à preocupação com a formação como caminho para a renovação do gênero, tudo isso em meio à caótica situação política e econômica em que se encontra o estado do Rio. Segundo, pelo nome de seu substituto: o ator Milton Gonçalves, que, sem experiência prévia na área, comanda agora um dos mais tradicionais palcos de ópera, concerto e balé da América Latina.

 

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A decisão foi tomada pelo novo secretário André Lazaroni. Sua chegada ao posto máximo da cultura estadual carioca foi resultado de trocas políticas, por conta de sua filiação partidária – suas áreas de atuação, afinal de contas, são o esporte e a política ambiental. Ele mesmo admitiu o fato em entrevista à jornalista Roberta Pennafort, publicada ontem aqui neste site. Mas a honestidade logo vira desfaçatez, quando o secretário, sem ligação ou conhecimento íntimo da área cultural, tenta nos convencer que a troca no Municipal seguiu critérios técnicos. Quais seriam eles? Ah sim, a necessidade de se investir em música popular e em apresentações dos corpos artísticos do teatro no interior e em áreas pobres, com vistas à renovação do público.

É muito vantajoso falar em “popularização”. Quem, afinal, pode ser contra a busca por novos públicos e a disseminação de uma forma de arte a todas as camadas de uma população? Não é por acaso que o argumento é utilizado a torto e a direito por governantes. Soa bonito. Soa moderno. Soa democrático. Mas é só mesmo falta de informação, fruto de uma ideia antiga, preconceituosa, ultrapassada, que revela um flagrante desconhecimento tanto com relação à ampliação do público ocorrida nos últimos anos, como principalmente quanto à existência de projetos de inserção social por meio da arte que tem feito da grande tradição sinfônica e operística um patrimônio compartilhado por um número cada vez maior e diversificado de pessoas.

É possível fazer mais? É possível e necessário. Mas o argumento de que se populariza ou amplia o alcance de um teatro de ópera, concertos e balés diminuindo o número de óperas e concertos e balés oferecidos, que passam a dar lugar a outras formas de manifestação artística, é conceitualmente uma bobagem. A não ser que, como subtexto, esteja a ideia de que uma cidade como o Rio de Janeiro não precisa de um teatro de ópera, concertos e balés. Se o momento agora é de espera, até que o novo presidente da Fundação Theatro Municipal do Rio de Janeiro divulgue seus planos para a instituição, cabe também à sociedade carioca, suas instituições musicais, lideranças artísticas e também aos artistas do teatro colocarem-se claramente a respeito da sugestão do secretário Lazaroni de que a música clássica, a ópera e o balé são manifestações artísticas que não precisam de um palco próprio, de referência.

Cultura para quem?

Se a notícia da saída de João Guilherme Ripper e sua equipe do Municipal soa chocante, não chega a ser surpreendente. Ao lado de uma inércia de ainda boa parte dos artistas e instituições, que relutam a mergulhar de cabeça na discussão sobre novas formas de contato com a sociedade, trocas políticas têm sido as grandes vilãs da cena cultural brasileira. A questão é que, agora, elas tornam-se ainda mais graves, porque precisam ser vistas à luz do questionamento que, em todas as esferas, se tem feito a respeito da importância da atividade cultural. Não custa lembrar: não faz muito tempo que o ministério da Cultura foi extinto. Ainda que a decisão tenha sido revista, o recado a respeito da importância da área parecia claro – e foi replicado Brasil afora. No Rio mesmo, a gestão de Luiz Fernando Pezão falou em extinguir a Secretaria de Estado da Cultura; em São Paulo, o governo Geraldo Alckmin tem diminuído o orçamento da pasta em níveis que superam em muito a queda de arrecadação, levando, além de cortes na Osesp, no Theatro São Pedro ou na Orquestra Jazz Sinfônica, à extinção da Banda Sinfônica do Estado de São Paulo. Na prefeitura municipal, 43,5% do orçamento para a cultura foram congelados. Em Curitiba, o prefeito Rafael Greca acabou com a Oficina de Música, em nome de um investimento na saúde, e o governo do estado do Paraná deixou que a sinfônica e o balé do Teatro Guaíra simplesmente deixassem de existir, até que um edital seja lançado para recompor os grupos. Em São José dos Campos, a prefeitura extinguiu a sinfônica local em nome de investimento em áreas tidas como mais importantes.

Já escrevi isso outro dia, mas repito. Podemos seguir fingindo que todos esses são acontecimentos isolados. Ou, então, aceitar de vez que há uma onda conservadora no ar de demonização da cultura – ou, no mínimo, de relativização de sua importância. O resultado disso a gente já conhece: uma compreensão menos diversa e múltipla do que deve ser um meio cultural, menos arte, menos espetáculos, para um número cada vez menor de pessoas. Alguém tinha falado em “popularização”?

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