Com a palavra, Gilberto Mendes

Com a palavra, Gilberto Mendes

Um pouco do que disse e pensava o maestro e compositor, morto na sexta-feira (1), aos 93 anos, em sua Santos natal

João Luiz Sampaio

02 Janeiro 2016 | 13h25

Dentre as muitas histórias narradas pelo compositor Gilberto Mendes, há uma de que gosto particularmente, contada na coletânea Viver a Música. Ele começa relembrando a interpretação de Martha Tilton para Thanks for the Memory, em 1938. “Ouçam a gostosura que é a voz especialíssima da Martha Tilton nesse tempo, super jovem, cantando essa inesquecível canção, acompanhada pela orquestra de Benny Goodman, num arranjo direto e simples, perfeito, verdadeira música de câmara. É o que eu chamo de som da felicidade, como o que ouvimos também no final de As Bodas de Fígaro, de Mozart. O prazer da felicidade, que a música pode nos dar. Ah, Martha Tilton de ma jeunesse! Eu me apaixonei por ela, seduzido pelo timbre de sua voz amorosa e terna, de uma simpatia irresistível. Nunca vi uma fotografia dela. Então, inventei seu rosto, um pouco de menina, mas eu era menino também… Coisa mais estranha, fantasmagórica, não faz muito tempo Martha Tilton se apresentou em São Paulo. Devia estar com bem mais de 70 anos, quanto tempo havia passado! Não quis vê-la. Preferia guardar na memória aquele rosto quase de menina que construí.”

Com Luiz Zanin, durante entrevista com Gilberto Mendes em 2009, em foto de Maria do Rosário Caetano

Com Luiz Zanin, durante entrevista com Gilberto Mendes em 2009 para o caderno Cultura, em foto de Maria do Rosário Caetano

O prazer da música, o prazer da felicidade. São imagens ou conceitos quase corriqueiros, mas Gilberto nos lembrava que eram também profundamente fortes. O que mais me agrada nessa história, porém, é a decisão do compositor de, confrontado com a realidade, seguir apostando no sonho. Isso é puro Gilberto Mendes. Se ele entra para a história como um dos mais importantes músicos do século XX, o faz justamente porque soube criar um universo próprio, só seu. E é desse manancial de encantamento perante o mundo que nasce a obra de um autor que sempre pensou a música perante os estímulos e as questões de nossa época – e que, da mesma forma, abandonava sempre que possível o presente em viagens que o levavam em direção ao tempo indefinido da memória e do imponderável que nos define como seres humanos. Não havia nisso nenhum paradoxo. Como compositor, Gilberto Mendes sempre defendeu a importância do novo – mas o novo também nascia, nele, por meio de um olhar de estranhamento e fascínio face ao mundo, que fazia com que ele estivesse sempre se reinventando.

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Recebi a notícia da morte do maestro (era assim que o chamava, não sem certa resistência de sua parte) no início da noite de ontem, pouco depois de embarcar no ônibus para a sua Santos natal. E a descida da serra teve como trilha inevitável a memória das diversas conversas que tivemos. A viagem, ao lado de um grupo de compositores brasileiros, pela Alemanha (com direito a horas de conversas sobre sua descoberta da música de Wagner); uma caminhada especial pela praia em Santos, à espera do pôr do sol; uma longa tarde conversando sobre música, cinema e tanto mais, com Luiz Zanin e Maria do Rosário Caetano, para uma capa do antigo caderno Cultura; a lembrança das descobertas de infância que ganhariam cores ficcionais no romance Danielle em surdina, langsam; ou a manhã em que Nelson Kunze, Irineu Franco Perpetuo e Leonardo Martinelli e eu gravamos com ele uma edição especial do Papo de Música da Revista CONCERTO, para marcar os seus 90 anos. Como repórter, foram mais de quinze anos de entrevistas e conversas – e da tentativa de reproduzir aos leitores ao menos um pouco do prazer de estar com ele, dessa mistura de monumento da vanguarda e narrador bem humorado, fascinante, sorridente, com uma leve ironia jamais fora do lugar. Nada melhor, então, do que homenageá-lo deixando que ele fale mais uma vez, em pequenos trechos dessas conversas.

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“A música que a gente ouvia chegava pelo rádio de Buenos Aires e Montevidéu. Eram os anos 1930. Bach, Mozart, Beethoven e tantos outros compositores iam e vinham ao sabor da intermitência das ondas. Eu era moleque, ouvia fascinado, a música chegava forte e, de repente, começava a desaparecer até o silêncio completo. Mas não era ruim, ficava aquela coisa misteriosa, aquela música que aparecia e desaparecia.”

“O ecletismo da minha música tem a ver com o ecletismo da minha formação. Ela reflete todo o meu gosto, é um pouco alemã, americana, brasileira. Tem um lado muito intelectualizado na construção dela, o que é herança da música alemã, do dodecafonismo. Acho que minha obra, por isso tudo, é um pouco desigual, mas, ao mesmo tempo, é muito igual. Tem coisas que são quase populares, outras altamente experimentais. Para alguns, isso é um defeito. Mas é que eu sou assim. Eu participei com o Willy Correia de Oliveira, com o Rogério Duprat, da vanguarda mais radical, muito ligada à poesia concreta, racional, fechada, mas nunca ia me proibir de ouvir Prokofiev, Shostakovich, que eu adorava. Sou capaz de ter a minha linha e gostar da linha dos outros, mesmo sem segui-la. Há pouco tempo, meu editor na Bélgica me encomendou uma peça para homenagear uma colega nossa pianista. Aí lembrei de um exercício de harmonia que fiz no conservatório. Peguei ele e o usei nessa nova obra, mas continuando de maneira moderna, mesmo que tonal. Aí percebi que, por mais que eu esteja sempre variando, tem uma unidade muito forte em tudo o que faço. Tem alguma coisa que gruda tudo isso que eu faço.”

“Minha grande paixão no século 20 é Stravinsky. É um caso curioso, você não aprende nada com ele, não tem teoria, técnica. Ele é ele. Ele mesmo dizia que seus companheiros, acho que falava no Schoenberg, faziam uma música totalmente planejada, cerebral. A minha música sai da minha cabeça, é só isso, ele dizia, mas tinha um complexo, tanto que no fim da vida começou a compor peças dodecafônicas, no fundo tinha medo de não deixar nada, nenhuma teoria, para a posteridade. Agora, o que saía da cabeça dele era uma coisa extraordinária. E o que simplesmente sai da cabeça é importante, tanto quanto o que você planeja cerebralmente, é o resultado do que você é. Eu sou um pouco das duas coisas. A gente precisa respeitar o que sai da gente e a que chamamos vulgarmente de inspiração, pois é resultado daquilo que somos. Mas, ao mesmo tempo, o cálculo pode te levar a descobertas que de outro jeito você talvez não fizesse.”

“O crítico Enio Squeff me sugeriu escrever algo sobre o Santos, era uma época de ouro, do Pelé. Um dia, voltando de São Paulo, no carro, ouvi a irradiação de um jogo e aquele falar rápido do narrador me deu uma ideia para a música. Aquilo era uma espécie de canto gregoriano, aí pensei em colocar mais duas vozes junto, o mesmo jogo mas em momentos diferentes. O engraçado é que a gravação é de um jogo em que o Santos perdeu. Eu tinha feito uma gravação para o maestro Eleazar de Carvalho quando ele fez a estreia na Europa. Mas, depois, na estreia no Municipal, um técnico do teatro sugeriu fazer outra. Com as gravações, eu coloquei a orquestra e a participação do público.”

“Lá na terra do Wagner, em Bayreuth, fui a uma lojinha de discos em que comprei três CDs com todas as músicas alemãs que eu ouvia na radioclube de Santos, com aquelas cantoras, Marlene Dietrich. Wagner inventou a música havaiana com O Crepúsculo dos Deuses. Isso é música havaiana, a gente vê no cinema. Minha formação foi assim, americana e alemã, até que a bossa nova me fez gostar da música brasileira.”

“Comecei a estudar música não só meio tarde, como também durante a 2ª Guerra. Foi uma época em que a vida cultural ficou meio paralisada. E eu, morando em Santos, estava isolado. Minha fonte de aprendizado era uma revista chamada Vamos Ler, do Rio. Lá escrevia um cara de nome esquisito, H.J. Koellreutter, compositor europeu que tinha fugido da guerra para o Brasil e trazia muita novidade do que era feito por lá. Eu sempre gostei do moderno, acho esse termo mágico, é um nome dos anos 20. Tinha um livro de um musicólogo chamado Adolfo Salazar no qual ele explicava a música moderna, falava de um tal de acorde místico de Scriábin ou de um acorde rotacional de Schoenberg. Eu olhava aquilo e aprendia muito. É interessante, quando ninguém te ensina, você acaba tendo que inventar algumas coisas. E assim eu fui seguindo.”

“Eu não tinha nada contra o Camargo Guarnieri, até tentei estudar com ele quando cheguei em São Paulo, mas não consegui. Na verdade, sou autodidata por falta de opção mesmo, mas acho que isso foi bom. O Guarnieri tinha uma personalidade muito forte, depois era aquela luta para se livrar dessa influência. O Koellreutter também era forte, queria me marcar muito, mas acabei escapando. Pessoalmente, não tinha nada contra o Guarnieri, mas ele era o líder dos nacionalistas e eu fazia parte de uma turma que achou necessário firmar uma posição contra a hegemonia da música dele, que dura até hoje, eu acho. Aí lançamos o Manifesto Música Nova e começou a discussão na imprensa. Toda vanguarda é agressiva, polêmica, quebra o pau e eu me liguei a gente muito agressiva. Mas fiz pouco nessa linha e me arrependo do que fiz. Não acho que só eu tenha razão, eu estava ligado à vanguarda mas não tem essa coisa de grupo. Eu virei amigo do Osvaldo Lacerda, que mantém até hoje essa linha do Guarnieri. Ele me manda cartão de Natal.”

“O lado experimental, de invenção, e vanguardístico de minha obra está mais, penso eu, na manipulação que eu faço de significados musicais muito diferentes e que resulta numa música altamente semântica. Eu a construo a partir da química de linguagens variadas: de nossos dias, da antiguidade, de culturas exóticas, linguagens eruditíssimas ou pop, muito artísticas ou linguagens menores, até vulgares, dentro de uma tradição barroca e eclética da arte americana, sobretudo a latino-americana. Uma música de certo modo promíscua, mas que me torna, acredito, um compositor rigorosamente de meu tempo.”

“Como me sinto aos 80? Assustado. Mas estou muito bem, é claro que não tenho mais o mesmo fôlego de quando era jovem, mas tenho uma mulher que cuida muito bem de mim. Fiz 50, 60, sem grandes problemas. Aí cheguei aos 70, comemorei um pouco. Mas agora, não sei, acho que 80 é um número bonito. No começo não queria muita coisa, mas até que estou curtindo. Parece que quanto mais idade a gente tem, mais pessoas a gente conhece, mais coisas temos a fazer. Eu fico feliz com isso.”