A retrospectiva de um ano cujos desafios seguem para 2018

A retrospectiva de um ano cujos desafios seguem para 2018

A realidade do meio musical em 2017 deixa para o ano que vem a tentativa de resolução de impasses e incógnitas que fragilizam nossas instituições

João Luiz Sampaio

24 Dezembro 2017 | 10h18

Orquestras e teatros de ópera nem sempre se comportam assim, mas são instituições que funcionam no longo prazo. É por isso que não dá para pensar em uma retrospectiva 2017 sem levar em consideração o fato de que em muitos sentidos o ano não termina no dia 31 de dezembro. Uma realidade que persiste, na verdade, desde 2015, quando tiveram início cortes de verbas na área, que não pouparam nenhum projeto, levando a indefinições e compassos de espera que enchem o setor de incógnitas.

No Teatro São Pedro, a chegada da Santa Marcelina Cultura à gestão trouxe uma nova proposta de programação – da qual a produção de Pulcinella e Arlecchino, de Stravinski e Busoni, foi exemplar, sob o comando de Ira Levin e William Pereira. A ideia é entender o São Pedro à luz de um novo conceito, que leva a um repertório contemporâneo ao mesmo tempo em que pode abrir espaço para óperas barrocas e do classicismo, que costumam estar ausentes das nossas temporadas apesar da importância que carregam.

Não é, no entanto, uma tarefa banal, e passa pela formação de artistas também para este repertório. Nesse sentido, abre-se outra questão, que é como será feita a formação no âmbito da Academia de Ópera do Theatro São Pedro e do Ópera Studio da Emesp. No mundo orquestral, a Santa Marcelina tem sugerido avanços importantes, e o que se espera é agora uma ação no sentido de mostrar que não dá para estabelecer novos paradigmas para o universo da ópera, como está sendo proposto, sem investir em formação de qualidade, moderna, em diálogo de fato com o a cultura contemporânea. O que torna tudo mais complicado é o detalhe nada pequeno do congelamento de verbas proposto pelo governo do Estado para os próximos cinco anos. Uma realidade perante a qual o meio musical paulista, ao menos por enquanto, tem reagido com resignação.

No Teatro Municipal de São Paulo, a temporada 2017 teve alguns espetáculos de ópera aquém daquilo que vinha sendo feito, o que é resultado, na verdade, de uma indefinição a respeito de como se entende o papel do teatro na vida musical da cidade. Ainda que de forma embrionária, o Theatro São Pedro esboçou um conceito e um sentido para a sua atuação. Mas isso ainda não aconteceu no Theatro Municipal, mesmo depois de alguns meses da chegada do Instituto Odeon à gestão. A grande incógnita na Praça Ramos de Azevedo para 2018 até agora tem sido a programação, as especulações sobre as óperas, quanta serão, quais serão, quem dirige, quem rege, quem canta. Mas o que se espera, ou se deveria esperar da agenda para 2018, é que ela seja capaz de sugerir de fato um caminho conceitual sólido e, junto a isso, uma nova realidade institucional, que leve em consideração as especificidades do teatro em toda a sua complexidade, olhando para frente. Se não houver essa discussão, qualquer plano para o Municipal terá fôlego curto – e desse tipo de iniciativas o teatro já não precisa mais, pois sugere um eterno recomeço que só fragiliza a instituição.

A Osesp teve grandes momentos, com destaque para as participações de Nathalie Stutzmann, como regente e cantora, e da violinista Isabelle Faust. E informou que não renovará o contrato de Marin Alsop como regente titular e diretora musical ao final de 2019. Quem assumirá a Osesp? Especulações sobre o nome devem tornar-se cada vez maiores, mas ele é tão importante quanto a disposição da Fundação Osesp de repensar o modo como se comunica com a sociedade, em busca de uma presença mais ampla. Uma das principais críticas feitas a Alsop durante sua gestão foi a falta de envolvimento com a vida musical brasileira e suas questões mais urgentes, ainda mais em um momento de crise financeira e de ataque à cultura e à arte. Não é um julgamento injusto, mas até que ponto a Osesp como instituição se entende como parte dessa vida musical? De certa forma, a postura de Alsop é também a postura da orquestra.

O maestro Ricardo Castro, em uma entrevista que fiz com ele no começo do ano, falava do mundo musical como uma pirâmide. No topo, está a grande orquestra; na base, projetos de formação de artistas. Fica faltando um meio de sustentação, no entanto, que ainda não foi consolidado, feito de uma série de elementos, como a relação com a comunidade, a renovação constante do diálogo com o público a respeito dos sentidos possíveis da música, do investimento em formação de artistas e de plateias, e assim por diante. Projetos de formação como o Neojiba, a Emesp ou o Instituto Baccarelli atuam nesse sentido, pela própria maneira como entendem a formação de um músico. Mas o topo da pirâmide, onde estão orquestras como a Osesp, também podem ter um papel mais amplo, deixando de se entender como pontos de chegada alheios à realidade à qual pertencem. Fico em apenas um exemplo concreto: se a presença da música nas escolas de modo universal é aceita como fundamental para a atividade musical como um todo, por que nossas instituições, unidas, não trabalham nesse sentido, ainda que politicamente? É necessário tirar o olho do próprio umbigo por um instante, entendendo que um meio musical mais amplo e saudável, no final das contas, só vai beneficiar a todo o setor.

Fora de São Paulo, os festivais de Manaus e Belém mantiveram-se vivos em meio à redução de verbas. Mas nenhuma situação é tão dramática quanto a do Teatro Municipal do Rio, no qual a qualidade de espetáculos como Jenufa (Marcelo de Jesus/André Heller-Lopes) empalidece perante a realidade dos artistas, que ficaram  meses sem receber por conta da crise no funcionalismo estadual. Além do efeito terrível na vida dos artistas, há uma realidade institucional a ser considerada. Se manter a programação é uma forma de mostrar para a sociedade e a classe política (que fez da cultura no Rio um feudo grosseiro de troca de favores partidários) a importância do Municipal, é preciso ao mesmo tempo tomar cuidado para não aceitar como normal uma situação em que o artista trabalha sem receber. O amor à arte não pode ser desculpa para desrespeito ao artista porque, no fundo, corre-se o risco de reforçar a ideia da cultura com um luxo, algo interessante mas nunca fundamental. É por isso que é auspiciosa a posição de Ana Botafogo ao ser convidada para assumir a presidência da Fundação Theatro Municipal. A bailarina obviamente tem muito a dizer artisticamente e sua nomeação seria um gesto do governo no sentido de se aproximar da classe artística. Mas ela não pode sair de graça. E Ana Botafogo colocou algumas condições, como a regularização dos salários, para aceitar o posto. Se o governo vai ceder, ainda não sabemos. Ao menos, está sendo chamada atenção para a situação lastimável a que chegou o Municipal, reivindicando a ele um mínimo de dignidade. Em um momento de ataque sistemáticos à arte e à cultura, gestos são importantes.

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Eu e o blog saímos de férias por algumas semanas. Um Feliz Natal a todos, uma boa passagem de ano, e, se ainda cabe algum otimismo, que 2018 nos seja leve.