Uma questão de genialidade

Estadão

24 Outubro 2007 | 10h15

ismail

O que uma criança albanesa tem em comum com uma brasileira?

Tudo.

E nada, claro.

‘Uma Questão de Loucura’, do escritor albanês Ismail Kadaré, é uma espécie de romance-biografia curtinha, de apenas 72 págs. Mas é sensacional: ele recria sua infância na Albânia no momento de transição entre a pressão nazista e o partido comunista, que viria a dominar o país nos quarenta anos seguintes.

É maravilhoso porque ele aborda com sensibilidade os problemas da sua casa (o avô que não abre a boca, a convivência com os ciganos, as tias malucas) e o contexto histórico pelo qual passa seu país. Kadaré tem uma escrita fácil e delicada. Resumindo: o cara escreve muito bem, não apenas com estilo, mas com palavras bem escolhidas que desenham belos e melancólicos cenários imaginários em nossas mentes.

Ismail Kadaré nasceu em 1936 e seu livro mais famoso, pelo menos no Brasil, é ‘Abril Despedaçado’, que virou aquele filme-videoclipe dirigido pelo Walter Salles. O brasileiro transpôs a história de briga entre clãs da Albânia para o sertão nordestino, nunca entendi direito por quê. Talvez tenha sido para fazer um videoclipe de Rodrigo Santoro bronzeado e sem camisa. Waltinho poderia ter adaptado a história albanesa para as brigas de gangues paulistanas, ou poderia ter feito um filme sobre as turmas de Jiu-Jítsu cariocas, que têm muito mais a ver com sua realidade.

Mas não: Waltinho Salles, só pra variar, quis fazer um filme mostrando o sertão e a pobreza, a pobreza, a pobreza. Gláuber Rocha fazer isso nos anos 60 eu até entendo, mas por que essa obsessão pela desgraça? Por que optar sempre por finais infelizes, como em ‘Central do Brasil’ ou ‘Terra Estrangeira’? Ou glamourizar ao extremo o mito do ‘herói’ Che Guevara em ‘Diários de Motocicleta’? Será que é complexo de culpa por ser filho do dono de um banco e uma das famílias mais ricas do Brasil? Nada que um bom psicanalista albanês não cure.