'Tropa de Elite': 507 anos do Brasil em apenas 2 horas

Estadão

05 Outubro 2007 | 09h15

padilha

Eu já vi ‘Tropa de Elite’. Não, não vi numa cópia pirata do camelô, antes que você pergunte. Não vejo cópias piratas porque não acho interessante sustentar o crime organizado. Vi numa dessas sessões que nós, jornalistas, temos acesso antes da estréia justamente para comentar e escrever sobre os filmes. Pois confesso que fiquei estarrecido: ‘Tropa de Elite’ não é apenas o filme do ano, mas um dos registros artísticos mais importantes da história do Brasil.

Em primeiro lugar, vamos deixar registrado que Hector Babenco disse que o filme “não pára em pé”. Se Babenco disse isso, pode ter certeza que o filme é excelente. A opinião de um diretor medíocre como ele não vai de maneira nenhuma influenciar a opinião de quem quer que seja, ainda mais porque quem conseguiu fazer um dos filmes mais chatos da história do cinema (‘Ironweed’) tendo nas mãos estrelas como Jack Nicholson e Meryl Streep não pode abrir a boca para falar sobre qualidade. Vamos lembrar que ‘Carandiru’, que foi recorde de público, mostrava criminosos sanguinários como caras superlegais, simpáticões, ‘puxa, coitados, são vítimas do sistema’, e coisas do tipo. ‘Carandiru’, do jeito que ele mostrou, é uma piada que não pára em pé. Ainda mais porque Babenco apelou ao mostrar Rodrigo Santoro como travesti… mas deixa isso pra lá.

‘Tropa de Elite’ traz o melhor ator brasileiro da atualidade, Wagner Moura, em um papel incrível. Ele é o capitão Nascimento, líder do Bope, a polícia de elite do Rio. Eu não diria que ele é o herói do filme, até porque o filme não tem heróis. Isso é um mérito do diretor José Padilha (foto acima): conseguiu fazer um filme de polícia X bandido sem nenhum mocinho: todos são podres. É uma espécie de maniqueísmo ao contrário (o contrário também de ‘Carandiru’, quase uma comédia em certos trechos), ironicamente. Aqui, a realidade é o ator principal. E ela está muito longe de ser herói.

Digo que ‘Tropa de Elite’ é tão importante para nós porque ele mostra justamente que, partindo do coração da polícia, responsável pela nossa segurança mais básica, vemos que o Brasil não tem o menor jeito de se tornar um país de verdade a curto prazo. É cada um por si e Deus contra todos, como já escrevi aqui: o policial do Bope é honesto, mas tortura e mata a sangue frio para atingir seus objetivos de vingança; os traficantes são desequilibrados suicidas, nosso equivalente verde-amarelo dos homens-bomba; a classe média é hipócrita, sustenta o tráfico com seus cigarrinhos de maconha, mas quando a verdade vem à tona sai em passeatas pedindo a paz; o policial comum, então, esse é um coitado que só quer ganhar seu dinheirinho sujo extorquindo pequenos comerciantes, prostitutas e os próprios traficantes; seus chefes não são melhores: preferem extorquir os políticos imundos. É o retrato do Brasil desenhado com perfeição – só poderia ter sido feito por um diretor especializado em documentários (Padilha dirigiu ‘Ônibus 174’).

As cenas de ação de ‘Tropa de Elite’, então, são inacreditáveis. Não consigo imaginar como José Padilha filmou tudo aquilo sem ter o elenco inteiro assassinado na primeira subida ao morro. Talvez tenha sido autorizado pelo tráfico, o que comprova que o filme é o retrato fiel do Brasil até nisso. E o fato das cópias piratas terem ido parar nas barracas de camelô antes de chegar nos cinemas é só mais uma prova de que ‘Tropa de Elite’ somos nós, esse quase-país que ainda falta muito para poder ser chamado de país.

O filme, em si, como já disse, é um ótimo filme de ação. A obra, no entanto, levanta uma outra questão que acho importantíssima: parte da violência é realmente sustentada pela classe média. Quem acende um cigarro de maconha está criando uma vítima da violência em algum lugar do Brasil. É o ‘efeito borboleta’ aplicado ao crime: você dá um trago aqui e um moleque negro e pobre morre em algum morro no Rio. Só que acho que a discussão é muito mais complexa do que essa. Qual é a probabilidade do mundo inteiro largar as drogas de uma hora para outra? É a mesma do mundo inteiro parar de usar gasolina para evitar os conflitos no Oriente Médio. Ou seja: teremos que discutir a questão das drogas em outro nível, não apenas no da repressão. Não estou falando sobre legalização, não quero levantar nenhuma bandeira, mas algum tipo de organização mais clara será necessária em algum momento. A humanidade sempre usou drogas, algumas foram controladas (tabaco, álcool, remédios), outras não (cocaína e maconha já foram legais em um ou outro momento da história). O consumo de drogas nunca vai deixar de existir, esse é o fato. Então é necessário que a sociedade discuta como reduzir a violência diante disso. O que mata mais, as drogas ou a violência que nasce de sua proibição? Como dizia Lobão na época em que foi preso com drogas, “eu não posso causar mal nenhum / a não ser a mim mesmo / a não ser a mim”. E os traficantes, podem causar mal a quantos de nós, que não temos nada a ver com isso?

Esse e outros temas são levantados por ‘Tropa de Elite’ de forma brilhante. Parabéns a toda equipe de José Padilha, os atores e técnicos, que conseguiram em duas horas resumir 507 anos de história do Brasil. Infelizmente… mas aí já não é culpa de nenhum cineasta.