Show do Guns N' Roses: Axl é o rockstar-bomba

Estadão

15 Março 2010 | 14h06

Axl Rose: O líder do Guns N' Roses engordou e não tem mais os cabelos do garoto que conquistou o mundo em 1988. Mas a atitude... Foto de J.F. Diório/AE

Axl Rose: O líder do Guns N' Roses engordou e não tem mais os cabelos do garoto que conquistou o mundo em 1988. Mas a atitude...

Difícil fazer uma crítica ao show do Guns N’ Roses no Parque Antártica, no último sábado, 13 de março. Se eu fosse um jornalista recém-chegado de Marte, sem nenhum envolvimento emocional com o assunto retratado, provavelmente seria muito fácil: eu comentaria apenas o lado técnico e esqueceria o resto. O problema é que não sou de Marte, sou fã e acompanhei toda a carreira do Guns N’ Roses, do início da fama à loucura de Axl Rose. E aí é mais complicado classificar o show apenas como ‘bom’ ou ‘ruim’.

Pensei nisso já na saída do estádio, quando encontrei amigos que me perguntaram ‘e aí, o que você achou?’. Há aqueles chatos que, quando alguém pergunta, ‘como vai?’, o cara realmente responde. Então eu acabei dizendo que ‘gostei’, mas há muito mais que isso, não? O show nunca é só bom ou ruim, ainda mais sendo um show do Guns N’ Roses.

A noite começou com o show de Sebastian Bach, ex-vocalista do Skid Row, já que perdi as duas bandas brasileiras que abriram a noite, o Rock Rocket (veja entrevista que fiz com o trio na TV Limão) e o Forgotten Boys. Sebastian Bach (‘Tião’, como ele se auto-apelidou, vestindo uma camisa do Brasil com o carinhoso apelido brasileiro) já foi um dos maiores rockstars do planeta, no final dos anos 80, início dos 90. O Skid Row, assim como o Motley Crüe, Ratt, Bon Jovi, Guns ‘N’ Roses e mais meia dúzia de bandas americanas de hard rock, se revezavam no topo das paradas com canções melódicas, riffs de guitarra e vocalistas amados pelas garotas. Além da fama e das turnês mundiais, essa cena praticamente dominada pela cena de Los Angeles, mais especificamente a região de Sunset Boulevard, em Hollywood, tinha em comum um visual andrógino e exagerado, cheio de maquiagem e hairspray. Em São Paulo, isso era chamado de ‘poser’. No Rio, era ‘rock farofa’.


Sebastian Bach canta ‘Big Guns’ e ‘Here I Am’ (imagens da TV Estadão):Em 1993, veio o Nirvana e detonou tudo isso. A maioria das bandas acabou ou foi condenada ao ostracismo. Alguns personagens sobreviveram, mas se tornaram caricaturas de um tempo que, apesar de relativamente recente, já era história na memória dos fãs ávidos por novidades e novos ídolos.

Peraí, estou dizendo tudo isso para quê?

Para dizer que Sebastian Bach se encaixa nesse perfil. O repertório do Skid Row era muito bom, principalmente dos dois primeiros discos, ‘Skid Row’ e ‘Slave to the Grind’. Mas ouvir esse som hoje (anteontem) soa datado como se ele fosse século passado (e é mesmo, claro). Algumas canções ainda sobrevivem, como ’18 and Life’, ‘Monkey Business’, ‘Youth Gone Wild’, e ‘I Remember You’, mas ‘Tião’ não está mais em sua melhor forma. É engraçado porque, como ele já foi um grande ídolo, parecia totalmente à vontade cantando em um estádio. Mas sua voz não é mais a mesma, e os arranjos vocais do Skid Row eram de um exagero cruel para sua garganta.

Sebastian Bach (a propósito, que nome maravilhoso para um rockstar, não?) foi simpático, se esforçou, correu para lá e para cá. Muitas meninas na plateia ainda tentaram se empolgar, garantindo que ele ainda estava lindo, sexy, etc. Mas ‘Tião’ parece preso (com braceletes de oncinha) aos anos 90, não apenas pelo visual anacrônico de cabelão e calça justíssima, mas porque ele não conseguiu transformar excelentes canções em clássicos do rock, talvez pela fragilidade delas mesmas quando expostas à passagem do tempo, talvez pela insistência dele em se apresentar como o adolescente-galã-ingênuo do início de carreira. Confesso que torci pelo ‘Tião’, queria que o show fosse bom e que sua voz desse conta do recado. Também não sou daqueles chatos que ficam prestando atenção em cada agudo que o cara dá para dizer ‘esse ele acertou, esse ele errou’. O problema não foi não alcançar as notas, mas tentar alcançá-las e não conseguir. Talvez por arrogância ou orgulho, ‘Tião’ não quis mudar o tom e adaptar os arranjos das músicas para torná-las mais fáceis. Ele quis ir atrás da época perdida, resgatar a fama à fórceps.

O tempo, no entanto, só anda para frente e não espera por ninguém, não importa se você era o rockstar mais famoso de Hollywood. Como em ‘Crepúsculo dos Deuses’, ‘Tião’ estava pronto para seu close-up… mas o fotógrafo não apareceu.

Falando do Guns, em primeiro lugar queria dizer que Axl Rose tem, sim, o direito de usar o nome ‘Guns ‘N’ Roses’, ao contrário de gente que falou que a banda era um cover de luxo. Se uma banda cover leva 38 mil pessoas a um estádio, eu queria tocar em uma banda cover. Gostaria de ver Axl tocando ao lado de Slash, mas o resto do Guns eu dispensaria facilmente (apesar de importante musicalmente, convenhamos que o resto da banda era irrelevante, pelo menos para o grande público). Axl-Slash era uma dupla, guardadas as devidas proporções, que nos remetia aos grandes duos do rock, como Mick Jagger-Keith Richards e Robert Plant-Jimmy Page. Mas Slash e Axl brigaram, e Slash não fez a menor questão de ficar com a herança do Guns N’ Roses: montou outras bandas (nos anos 90, conheci o mestre da Les Paul quando o Viper abriu para o Slash’s Snakepit no saudoso Olímpia, em São Paulo), gravou com vários artistas, seguiu seu próprio caminho. Axl Rose ficou com o peso (literalmente, como veríamos alguns anos mais tarde) de levar o legado artístico da banda para as gerações futuras. Por isso, acho que ele tem, sim, o direito de usar o nome ‘Guns N’ Roses’. Algúem tem dúvida de que Axl é o Guns N Roses? No, way.

Luzes apagadas, introdução nos alto-falantes e tudo pronto para Axl entrar em cena. Mas logo no início da apresentação já tivemos uma amostra do que é um show quando Axl Rose está no palco: tenso, nervoso. Logo na primeira música, ‘Chinese Democracy’ Axl foi atingido por um copo d’água e interrompeu.

Veja o vídeo abaixo, publicado no YouTube:

Entre as frases publicáveis, Axl disse: ‘Seu covarde, você quer ferrar todo mundo que está no show? Porque para mim não tem problema, eu vou embora.” Quem conhece Axl sabe que isso é verdade: ele pode deixar o palco a qualquer momento. Se as pessoas sabem que isso pode acontecer, por que atacam coisas nele? Por que há imbecis na plateia que querem aparecer mais que o artista? Se Axl fosse embora, aposto que começaria um quebra-pau perigosíssimo e com prováveis vítimas entre as 38 mil pessoas que lotavam o estádio. Por que, então, um idiota joga um copo d’água no vocalista na primeira música do show? Porque sabe que não vai acontecer nada com ele. Se houvesse uma tragédia causada por essa idiotice, será que o idiota seria responsabilizado? Como aqui é o Brasil, provavelmente… não. É como a violência entre torcidas: o anonimato em meio à multidão libera o animal que existe dentro de cada imbecil.

Axl aproveitou também para falar sobre o incidente da noite de quinta-feira, quando ele não compareceu a um show acústico que faria na boate Disco, em São Paulo. A banda chegou a passar o som e Axl decidiu não comparecer ao local apenas lá pelas 2 da manhã, porque estava com a voz ruim e não queria comprometer o show de sábado. As 200 pessoas que estavam na boate, ao saber que não haveria o acústico, partiram para o quebra-quebra, brigas, baixarias. Lembrando apenas que a Disco é uma das boates mais chiques e caras de São Paulo, ou seja, cheia de gente, aparentemente, alfabetizada. Ledo engano, Brasil-sil-sil!

Live and let die.

Depois do início tenso, Axl emendou um repertório que alternava sucessos antigos do Guns, como ‘Welcome to the Jungle’, ‘Mr. Brownstone’, ‘Nightrain’, ‘Sweet Child O’Mine’ (um dos melhores riffs da história do rock), ‘November Rain’ e músicas do ‘Chinese Democracy’ (leia aqui uma crítica sobre o disco mais falado e menos ouvido de todos os tempos). Só para constar, acho o ‘Chinese Democracy’ um disco excelente, do nível de qualquer outro disco do Guns (e até melhor que alguns). O problema é que todo mundo começou a falar sobre as maluquices do Axl e esqueceu de falar sobre as músicas, e daí fica difícil.

Disseram também que o disco demorou muito para ser gravado/lançado e, por isso, seria decepcionante. Alguém que entende um mínimo de música sabe que não há a menor relação entre o tempo em que um disco é gravado e sua qualidade. Os Beatles gravavam discos em um dia (sim, era outra época), o Brian Wilson, do Beach Boys, demorou décadas para gravar ‘Smile’. Michael Jackson demorou muito tempo para fazer ‘Invencible’. Passar mais horas no estúdio não significa que o disco sairá bom. O que diz se um disco é bom são suas canções, seus arranjos, suas performances, suas vendas. Por isso o ‘Chinese Democracy’ é bom, e não por qualquer outra razão. E só para lembrar, já vendeu cinco milhões de cópias em todo o mundo… numa época em que ninguém mais compra discos.

Vamos voltar a Axl, essa figura tão esquisita do rock and roll. Talvez ele seja o último dos rockstars excêntricos, essa figura tão comum nos anos 70 e que virou peça de museu após a explosão dos cachês milionários e do profissionalismo (no mau sentido). Axl pode ser uma versão pós-pós-moderna de Elvis Presley (adaptado à nossa época, claro), o típico garoto americano que fica famoso, inventa uma dança toda própria e com os anos vai virando outra pessoa, muito mais estranha, inchada, desequilibrada e afetada por Deus sabe lá quais substâncias. Vieram me perguntar se eu achava que o Axl usava drogas e eu respondi que não tinha a menor ideia. Está na cara que usa alguma coisa, ou talvez sua loucura e egocentrismo sejam suficientes para embriagá-lo. Talvez tome um coquetel de drogas no café da manhã, sei lá. Nunca saberemos. Ou descobriremos apenas se algo de muito ruim acontecer (bate na madeira três vezes, toc, toc, toc).

Axl tem uma fúria que o transforma em um personagem magnético: se ele está no palco, é impossível olhar para outro músico. O olhar pode começar a se perder e chegar até um dos guitarristas, mas volta rapidamente para Axl assim que ele volta a cantar com sua voz esganiçada e única. Ele grita mesmo, mas são gritos familiares, quase carinhosos. Axl sorri, mas nem assim ele passa uma imagem de tranqüilidade. É um rocsktar-bomba, prestes a explodir a qualquer momento. Nem quando senta ao piano a gente fica sossegado e assiste ao show numa boa. Se Elton John tivesse fumado crack quando era adolescente, teria virado Axl Rose. Axl é o Michael Jackson do hard rock.

Quanto à banda, só posso dizer que os músicos são excepcionais mais ou menos na proporção inversa de seus carismas. Ou seja: tocam muito, perfeitamente, mas parecem ter saído de uma fábrica de ‘descolados’. São todos tatuados, fazem caras e bocas, detonam suas guitarras, têm cabelos e roupas malucas, colares e pulseiras, brincos em vários lugares do corpo. E ninguém está nem aí para eles. Queria que tivesse vindo o Robin Finck, um dos guitarristas mais incríveis da atualidade e que gravou ‘Chinese Democracy’.

O show teve quase três horas, mas vamos deixar claro que boa parte é ocupada por solos individuais. Como é que se dizer ‘encheção de lingüiça’ em inglês? Sei lá. Alguns solos foram legais, quando o músico quis fazer alguma homenagem divertida em vez de ficar dizendo ‘olha o que eu sei fazer’. O pianista Dizzy Reed tocou uma versão instrumental de ‘Ziggy Stardust’, do David Bowie. Comecei a cantar a letra em voz alta, mas parei logo em seguida porque começaram a me olhar com uma expressão do tipo: ‘o que esse tiozinho está cantando? Essa música nem está no disco do Guns’, ou algo do tipo. O guitarrista Ron ‘Bumblefoot’ Thal (que devia estar gripado, porque usava casaco de couro no calor de 35 graus) tocou o tema da Pantera Cor-de-Rosa em versão metal; o guitarrista Richard Fortus tocou a musquinha do James Bond; já o guitarrista DJ Ashba ficou apenas fazendo umas escalas pentatônicas e arrumando o cabelo. Totalmente desnecessário. Completavam a banda o baixista Tommy Stinson (bom) e o baterista Frank Ferrer (muito bom).

O show terminou com ‘Patience’ e ‘Paradise City’, dois clássicos do Guns cantados por todo o estádio. Voltando ao início do texto, eu diria que tecnicamente o show foi apenas ‘bom’, principalmente porque a voz de Axl falhou bastante em algumas músicas. Mas olhando para a trajetória de Axl Rose, sua importância no processo que recolocou o rock no topo do mundo e, principalmente, sua atitude de não se importar com ninguém a não ser seus fãs, posso garantir: foi um show de rock inesquecível.

Thanx, Axl. Good luck, man.

A belíssima balada ‘This I Love’ em show de Osaka, Japão, 2009.
(Atenção ao solo criado por Robin Finck e executado aqui pelo guitarrista DJ Ashba aos 2:29 da música. É um dos meus solos favoritos)