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30 Agosto 2010 | 18h46

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Foto: Chris Pizzello/AP Photo

É possível sentir saudade de uma situação que nunca se viveu? Opa, espera um pouco, talvez ‘saudade’ não seja a palavra certa. Vamos reformular: é possível sentir uma forte ansiedade por não ter vivido alguma coisa bastante específica que você teve a oportunidade de ter vivido? Ah, isso é possível, sim. Mais que possível, isso é bastante comum. Ou então eu devo estar ficando louco.

Não sei se acontece somente comigo, mas já me peguei pensando como a vida teria sido se eu tivesse tomado a decisão X em vez da decisão Y. E se eu tivesse feito isso, como teria sido aquilo? Mas, talvez, se eu não tivesse feito aquilo, certamente não teria acontecido isso… e por aí vai.

Confesso que me dá uma certa frustração pensar que a gente só tem uma vida, uma única chance de acertar. Será que sou só eu que erro tanto? Por outro lado, tenho certeza de que pessoas bem intencionadas levantarão os braços para pedirem sua vez de falar. E daí dirão clichês horríveis argumentando ‘que é justamente essa a beleza da vida, e por isso temos que pensar muito bem antes de fazer as coisas’. Mas o que dirão esses seres tão equilibrados para alguém que pensa muito antes de fazer as coisas, analisa todos os cenários possíveis e imagináveis, repassa mentalmente todas as consequências… e, ainda assim, comete erros? De quem é a culpa por isso?

Vamos baixar um pouco a bola, porque hoje é domingo e daqui a pouco sua família vai chegar para o almoço. Você vai olhar em volta e ver pessoas que você ama, pessoas com quem você tem muito em comum. E, num singelo segundo, vai imaginar como essa família seria diferente se o seu pai não tivesse beijado sua mãe naquele determinado baile, ou se o pai do seu pai não tivesse beijado sua avó no portão da velha casa.

E daí talvez seu pensamento possa ir ainda mais e mais longe, e você se lembre dos seus bisavós, maternos ou paternos, ou os dois, e imagine como as vidas deles se cruzaram. E as vidas dos que vieram antes dele – são tantas variáveis que você ficará louco.

Mesmo que você passasse o dia inteiro pensando nisso (e não vai passar, claro), não seria suficiente para refazer mentalmente a árvore genealógica de toda a sua família desde o Homem de Neanderthal, ou antes disso, desde que o primeiro girino da primeira gota d’água saiu do mar para habitar a primeira floresta.

Não podemos esquecer as crianças. Você acha que seu filho tem infinitas opções pela frente, mas, na verdade, elas não são tantas assim, já que ele só poderá seguir uma delas, sem nunca saber como seriam as outras. E você? Você também não terá milhões de futuros, apenas um. E é possível sentir saudade dos outros futuros que você não viverá? Pensando bem… sim, é possível.

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