Profissão: Cupido

Estadão

22 Outubro 2007 | 10h52

Meus amigos reclamam que eu sou metido a bancar o Cupido. Dizem que essas coisas armadas nunca dão certo, mas eu não desisto.

Minha (suposta) vocação para Cupido surgiu há alguns anos. Para ser mais exato, nasceu exatamente no dia do meu casamento. Foi uma reação lógica ao matrimônio: já que eu não poderia mais aproveitar a vida de solteiro, passei a tentar desencalhar o maior número possível de amigos. Quanto mais casaizinhos na turma, menor a chance de um solteiro ligar no dia seguinte para me torturar com detalhes sórdidos de suas baladas.

Para quem não sabe, o deus romano Cupido é o mesmo anjinho com arco e flecha que na Grécia antiga se chamava Eros. Segundo a mitologia, Cupido era filho de Vênus e Marte e teve um tórrido caso de amor com a princesa Psique, Deusa da Alma. Peraí! Se ele era o Cupido, quem foi que ajudou a juntar ele e a Psique? E os pais dele, Vênus e Marte? Essa história está mal contada.

Reconheço que não sou o melhor Cupido do mundo, mas faço o possível. Guardo na gaveta, por exemplo, uma pasta com uma lista de amigas e amigos solteiros, por exemplo. A cada amiga que me liga chorando com aquele papinho “acabei de terminar o namoro”, saco a lista e apresento uma série de possíveis candidatos. Geralmente a amiga (ex-amiga, depois disso) desliga na minha cara, mas isso não importa. O que vale é a intenção.

Não escondo de ninguém que o meu objetivo é formar um batalhão de casaizinhos, todos marchando pelas ruas da cidade em direção a salas de teatro e restaurantes descolados. Em vez de palavras de ordem, discussões sobre cinema e música; no lugar de estratégias militares, debates acalorados sobre a influência do, sei lá, vinho chileno no futebol africano. Tudo com muita educação, porque casaizinhos são sempre muito civilizadinhos.

Algum amigo solteiro deve estar lendo esse texto e pensando: “isso é papo furado, ele nunca me apresentou ninguém!” Calma. A sua hora ainda vai chegar. Enquanto isso, trabalho discretamente. Quando você menos esperar, uma flecha atingirá seu coração. E aí é só me avisar: eu sempre guardo uma mesa a mais no restaurante.