Perto demais da verdade

Estadão

29 Outubro 2007 | 12h54

closer

Engraçado como alguns filmes continuam mexendo com o imaginário popular anos depois de terem saído dos cinemas. ‘Closer – Perto Demais’ é um deles.

Coincidência ou não, várias pessoas me pediram recentemente para escrever sobre ‘Closer’. O filme é ótimo e muito sensível – não só pela bela direção de Mike Nichols e pelas atuações de Jude Law, Natalie Portman, Julia Roberts e Clive Owen, mas principalmente porque levanta questões incômodas e atuais de forma bem inteligente.

(Um pequeno parênteses: hoje é o aniversário de 40 anos de Julia Roberts.)

Adoro ‘Closer’ desde a primeira cena: Natalie Portman andando na rua, em câmera lenta, ao som de ‘The Blower’s Daughter’, de Damien Rice. A trilha sonora e a expressão da atriz criam uma cena tão dramática que dá vontade de chorar antes mesmo de saber sobre o que é o filme.

E sobre o que é o filme? Sobre várias coisas, mas principalmente sobre as verdades e mentiras dos relacionamentos, atitudes que costumam desafiar a lógica aristotélica que garante que uma afirmação não pode ser verdadeira e falsa ao mesmo tempo. Quanto se trata de amor… pode, sim.

Um antigo professor do primário costumava dizer que todas as histórias têm sempre três versões: a minha, a sua e a verdadeira. ‘Closer’ joga com isso o tempo todo.

O filme mostra uma troca de casais supersexy, mas isso não é o principal. Legal é decifrar as armadilhas de sedução cerebral que os personagens aplicam uns nos outros. Por meio de palavras afiadas como lâminas, os casais jogam ‘mind games’ (jogos da mente) enquanto pulam de cama em cama. Convenhamos: camas são sempre tabuleiros arriscados para qualquer tipo de jogo…

Numa das minhas cenas favoritas, Owen conta a Julia Roberts que transou com uma prostituta. “Só estou contando porque eu não poderia mentir para você”, diz Owen. “Por que não?”, questiona Julia, numa resposta surpreendentemente sincera. Pensando bem… e você, acha que ele fez certo? Deixa para lá. Não quero estragar o resto da sua semana.

Enquanto isso, a personagem de Natalie Portman prefere o humor: “Mentir é a coisa mais divertida que uma garota pode fazer sem tirar a roupa”, brinca em outro momento sua personagem, a stripper Alice.

Apesar de ser um filme de ficção, ‘Closer’ tem personagens bem reais. Um deles, inclusive, poderia ser você. Pense bem: olhando para trás, você não se arrepende de ter terminado aquele relacionamento que hoje te dá saudades? E aquela verdade que você contou e foi tão dolorosa para quem ouviu, teria sido melhor omitir? Além de verdades e mentiras, ‘Closer’ é um filme sobre erros, sobre escolhas erradas que se faz em um momento ou outro da vida. E sobre a diferenciação explícita entre o amor romântico, de dentro para fora, e o amor egocêntrico, de dentro para… dentro. Apesar de parecerem iguais, o filme revela como, na verdade, são dois sentimentos opostos.

Só tenho uma ressalva: cuidado para não alugar esse DVD num momento de instabilidade emocional. O Ministério da Saúde não adverte, mas ‘Closer’ pode ser prejudicial ao seu coração.