Ozzy Osbourne: O príncipe das trevas e da chuva

Estadão

04 Abril 2011 | 13h30


Se Keith Richards e Boris Karloff tivessem um filho, ele seria Ozzy Osbourne. Foto de Andre Penner/AP Photo

Na última sexta-feira, um dia antes do show de Ozzy Osbourne na Arena Anhembi, em São Paulo, assisti a um especial da MTV sobre o príncipe das trevas. O programa mostrava Ozzy no estúdio com sua nova banda, gravando videoclipes e até participando de uma pegadinha com seus fãs. Fazendo uma alusão ao refrão de seu novo single, ‘Let me hear you scream’ (Deixe-me ouvir você gritar), a produção da MTV retirou a estátua de cera de Ozzy de um museu em Los Angeles e pediu para o próprio vocalista ocupar o local. Ou seja, Ozzy ficava ali paradinho esperando a chegada dos fãs. Quando alguém se sentava ao lado da ‘estátua’ para tirar uma foto, Ozzy se mexia e dava um susto. Fizeram isso umas 50 vezes, eu chorei de rir em cada uma dela.

Comecei o texto falando sobre isso porque a brincadeira dá dimensão de quem é o ‘personagem’ Ozzy Osbourne hoje em dia. Quem acha que Ozzy é apenas um vocalista de heavy metal não tem noção do que representa sua figura para a cultura pop. Ozzy é um Nosferatu pós-moderno, com tudo de paradoxal e farsesco que isso representa. Sim, ele é vocalista de heavy metal e um dos principais pioneiros do rock pesado em todo o mundo. Mas ele também é um rufião que sabe muito bem transformar sua imagem de louco em milhões de dólares.

A carreira de Ozzy começou como a de dezenas de outros rockstars: lançando um disco atrás do outro, fazendo turnês exaustivamente longas por todo o planeta, consumindo álcool e drogas em quantidades assustadoras para os padrões da população ‘civil’. Desnecessário dizer que Ozzy e seus companheiros da formação original do Black Sabbath – o guitarrista Tony Iommi, o baixista Geezer Butler e o batera Bill Ward – praticamente inventaram em 1969 o heavy metal como conhecemos hoje, pelo menos a escola mais ‘escura’ desse estilo de tantas vertentes.

Ozzy ficou apenas dez anos no Black Sabbath, mas foi o suficiente para criar obras clássicas, como os discos ‘Black Sabbath’, ‘Paranoid’, ‘Master of Reality’, Sabbath Bloody Sabbath’ e outros. Ozzy saiu e engatou uma bem sucedida carreira solo; o Sabbath também se deu muito bem ao contratar o (recém-falecido, infelizmente) vocalista Ronnie James Dio e criar um novo catálogo de clássicos de estilo um pouco diferente.

A partir do lançamento do primeiro disco de sua carreira solo, ‘Blizzard of Ozz’, em 1980, ficou claro que Ozzy não era mais apenas um vocalista de heavy metal. Ele era Ozzy Osbourne, príncipe das trevas.

Vamos imaginar uma cena grotesca: se Keith Richards e Boris Karloff tivessem um filho, ele seria Ozzy Osbourne.

Tudo ficou mais exposto com o reality show The Osbournes, que mostrava o dia a dia na casa de Ozzy e sua família. A série ridicularizava o roqueiro mostrando que ele obedecia cegamente à mulher em tarefas mundanas e parecia um fantoche dentro de sua própria casa. Por outro lado, o show rendeu milhões de dólares e levou a imagem de Ozzy a um público que normalmente teria medo dele ou, pelo menos, antipatia.

Mostrou que, por trás da imagem vendida durante anos de ‘príncipe das trevas’, Ozzy não passava de um tiozinho meio atrapalhado e inofensivo. Como fã de Ozzy, achei meio desrespeitoso. Hoje entendo que não era nada disso. Essa imagem foi pensada e construída ardilosamente por Ozzy e Sharon Osbourne, sua mulher e empresária.

Percebi isso na entrevista coletiva que Ozzy deu em São Paulo e que você pode ver trechos abaixo, em matéria da TV Estadão. Ozzy diz que nunca mais fará um programa de TV, atribuindo ao estresse das gravações o câncer da mulher Sharon e o envolvimento dos filhos Jack e Kelly com drogas. Dito isso, que deve ser verdade, Ozzy disse na coletiva que tem uma vida normal e que seu dia a dia consiste basicamente em limpar o cocô dos cachorros a mando da mulher.

Achei isso meio forçado porque essa foi justamente uma das cenas mais famosas do reality show. Ora, estamos falando de algo que a TV mostrou há anos. É inconcebível imaginar que a vida de Ozzy em casa ainda é pegar cocôs de cachorro no chão. Portanto, ao que parece, Ozzy ‘usa’ deliberadamente a imagem que o reality show exibiu, optando por divulgar uma imagem planejada vis-à-vis sua imagem real: a imagem de um tiozinho meio atrapalhado e inofensivo já está espalhada, não é preciso explicar muita coisa. Ao usar essa imagem conscientemente, Ozzy deixa de ser o Ozzy-vocalista-de-heavy-metal e se torna Ozzy-o-ídolo-da-cultura pop-personagem-de-reality-show. É mais fácil ser um Nosferatu pós-moderno do que um artista que continua se desafiando artisticamente após tantos anos de carreira.

Quando sobe ao palco, no entanto, qualquer resquício desse personagem desaparece. Lá não tem Sharon Osbourne para encher o saco, nem produtores de reality show ou marqueteiros. Lá é o lugar de Ozzy e sua banda de garotos que poderiam ser seus netos. E se tem um cara que sabe montar uma banda de rock pesado, esse cara é o Ozzy.

Ozzy já trabalhou com alguns dos melhores guitarristas do mundo. Ele tem faro, sabe escolher um desconhecido em transformá-lo em um guitar hero. Tudo bem, isso na Califórnia nem é tão difícil assim: lá os guitar hero crescem em árvores. Mas Ozzy tem o seu mérito; basta ver a lista de guitarristas que passaram por sua banda.

Depois de Tony Iommi, Ozzy descobriu Randy Rhoads. O baixinho loiro ex-Quiet Riot precisou de apenas três discos para entrar para a história do rock. Basta ouvir os riffs e solos de ‘Crazy Train’ e ‘Mr. Crowley’, considerados até hoje solos mais incríveis da história da guitarra. Rhoads morreu cedo, vítima de um estúpido acidente aéreo, e a partir daí outros grandes guitarristas começaram a se revezar no estúdio e no palco, sempre ao lado esquerdo de Ozzy: Brad Gillis, Jake E. Lee, Zakk Wylde e, agora, Gus G.

Ainda não chovia quando o Sepultura esquentou o público com seu repertório ultra-conhecido dos brasileiros. Ozzy entrou ao som de ‘Bark at the Moon’, mas infelizmente a lua não podia ser vista porque as nuvens já começavam a atrapalhar a das vinte mil pessoas da plateia.

Ao contrário do Iron Maiden, que tocou no show da semana passada um repertório composto basicamente por músicas novas, Ozzy foi mais populista e cantou praticamente apenas velhos sucessos. ‘Let me Hear You Scream’, a segunda do show, foi a única exceção. Mas a música é bem legal, então o ritmo do show não foi quebrado em nenhum momento. ‘Mr. Crowley’ dispensa comentários, e pudemos ver o talento do guitarrista grego Gus G. Quem é fã de Ozzy, gosta que seus guitarristas mantenham os solos originais, principalmente os de Randy Rhoads, que são inesquecíveis. Gus fez isso: tocou nota por nota a melodia imortal criada por Rhoads. O público até cantou o solo…

Foi nessa hora que a chuva começou a cair com mais força. E continuou assim até o final do show, incomodando todo mundo. Para mostrar que não tinha medo de água, Ozzy jogou um balde de água sobre a própria cabeça. ‘Fuck the rain!”, gritou, em mais um arroubo de sua já conhecida educação britânica.

Veio então outra do disco ‘Blizzard of Ozz’, a pesadona ‘I Don’t Know’. ‘Fairies Wear Boots’ foi a primeira do Black Sabbath, mas acho que a música poderia ter sido melhor escolhida (‘Sabbath Bloody Sabbath’, ‘Children of the Grave’ ou ‘Sympton of the Universe’ teriam sido mais legais, na minha opinião).

‘Suicide Solution’ e ‘Road to Nowhere’ vieram depois, preparando terreno para um dos grandes hinos do rock pesado: ‘War Pigs’. Sensacional! ‘Shot in the Dark’ é meio breguinha, mas foi hit nos Estados Unidos, e por isso Ozzy sempre dá um jeito de incluí-la na turnê.

‘Rat Salad’, outro cover do Black Sabbath, é o momento em que Ozzy vai para o camarim descansar (ou tomar uma injeção de vitamina, como fez aqui no último show, entre outras coisas divertidas). Solo de guitarra de Gus G., solo do batera (animal) Tommy Clufetos. Rob ‘Blasko’ Nicholson (baixo) e Adam Wakeman não fizeram solos, mas os dois também se revelaram músicos talentosos. Adam Wakeman, inclusive, tem a quem puxar: ele é filho de Rick Wakeman, o lendário ex-tecladista do Yes.

Ozzy volta ao palco com energia, afinal, ele é o homem de ferro… sim, ‘Iron Man’ é a próxima, outro hino do Sabbath. ‘I Don’t Want to Change the World’ é simpatiquinha, assim como ‘Mama I´m Coming Home’. Eu gostei mesmo de ‘Crazy Train’, e daí veio o final apoteótico: ‘Paranoid’. Finished with my woman ’cause she couldn’t help me with my mind…

Assistir a um show debaixo da chuva é péssimo, não importa que é o artista. Confesso que isso atrapalhou um pouco o show, apesar de Ozzy não ter a menor culpa, claro. Acho que mandar aquela quantidade de chuva deve ter sido uma vingança dos deuses, provavelmente inconformados com a popularidade do príncipe das trevas. Sagrado ou maldito, Ozzy é uma voz única, muito mais interessante e talentosa que a imagem de tiozinho meio atrapalhado e inofensivo vendida pela TV. Eu prefiro o Ozzy do palco.

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